Contrata-se insubordinados!

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Autor: Edilson Menezes
Imagine que você passa diante daquela grande empresa e encontra uma placa idêntica ao título desse artigo. Imagine ainda que o anúncio finalizaria assim: para início imediato com bônus para insubordinados que sabem negociar.
No mínimo improvável, não é?
Em 1980, se você perguntasse para um empresário o que pensava sobre funcionários insubordinados, ele diria que era um problema sério e finalizaria a entrevista afirmando como é difícil fazer as pessoas cumprirem ordens.
Em 2015, muitos empresários estão preocupados com o efeito do poder que concederam para alguns líderes.
Confiram passado e presente da visão dos empresários sobre o tema:
Análise da visão empresarial em massa
Nas grandes empresas, manuais de políticas e procedimentos ainda não foram totalmente condenados, mesmo assediados pela dinâmica da modernidade que exige perguntas novas todos os dias. Nas médias, missão, visão e valores servem como embasamento para que a liderança cobre os comportamentos e desenvolva as competências individuais. Nas pequenas empresas, a voz do dono ou dos sócios ainda é imperativa, independente da opinião de sua equipe ou do mercado.
Análise da visão empresarial moderna
Nas grandes empresas, o arcaico e condenado manual deu lugar para discussões mensais. Até mesmo as empresas e franquias que atuam em diversos países concluíram que é possível padronizar o modus operandi do negócio, mas é impossível padronizar o ser humano. Nas médias, nunca se abriu tanto espaço para ouvir os profissionais e nas pequenas, os donos descobriram que sua visão é cheia de vícios do passado. Cada vez mais, estão abrindo espaço para que as pessoas não obedeçam às cegas e questionem quando perceberem que uma ordem pode ser prejudicial à empresa.
A ordem e a disciplina são passíveis de falha, afinal foram criadas por pessoas imperfeitas que desejam a perfeição alheia no momento de executá-las.
Em tempos adversos na economia nacional, a habilidade para estabelecer ordem e contratar apenas quem seja capaz de segui-las sem questionamento exige reflexão.
De olho nisso, empresários modernos e preparados para manter sua empresa firme e pulsante, embora não digam com todas as letras, estão mais flexíveis e até desejosos de ter na equipe pessoas insubordinadas.
Entretanto, eles têm separado dois perfis: o insubordinado intragável e pessimista que está sempre levando a equipe (ou tentando) para o lado negativo de tudo. O segundo e mais desejado perfil é do insubordinado que tem ótimo relacionamento interpessoal, é motivado e questiona ordens improdutivas ou nocivas.
Antigamente, os empresários elegiam seus líderes e quando estes traziam uma demanda de insubordinação, não precisava nem contar detalhes.
Pode demitir! – dizia o empregador.
Ora, vivemos tempos em que demitir e recontratar é um exercício de luxo que requer tempo, energia financeira e emocional. Hoje, quando o líder traz para o empresário o relato de que alguém da equipe foi insubordinado, a reação é outra.
– Como exatamente isso aconteceu? – pergunta o empresário.
O motivo desta mudança é simples. O patrão ou acionista moderno percebeu que ele também precisa receber educação empresarial. Nós, treinadores comportamentais, sempre os convidamos à reflexão sobre o comportamento da equipe.
Às vezes, o líder está seduzido pelo poder e a insubordinação pessoal é a que mais ofende o ego destes profissionais.
Eis a diferença:
Insubordinação corporativa
– Eu entendo que a empresa nos pediu para vender desta maneira. Será que podemos fazer uma reunião com o sócio? Se eu tiver apenas 5 minutos com ele, posso provar que a decisão vai fazer o nosso concorrente disparar nas vendas e o nosso faturamento cair!
Insubordinação pessoal
– Eu não vou fazer o que você está me pedindo. Vender desta maneira é como entregar o ouro para o concorrente. Tô fora, chefe, você tá fazendo burrada!
Em ambos os casos, a postura do líder vai definir sua decisão. No primeiro, muitos líderes manobram para demitir estes insubordinados porque temem que o seu lugar seja tomado. No segundo, muitos líderes demitem porque se sentiram desafiados e não raro, ainda dizem para o patrão, no afã de justificar a demissão:
– Quem ele acha que é para falar comigo desta maneira?
Para melhorar a empresa exemplificada, todos devem ser treinados. O primeiro insubordinado deve ser ensinado a se anteceder ao movimento e sempre que tiver ideias, trazê-las para a partilha antes que uma ordem seja dada desnecessariamente. Se o empresário tiver visão, não demorará para este profissional ser promovido.
No segundo exemplo, o insubordinado deve ser treinado para expor sua opinião de forma respeitosa e no caso dos líderes, devem ser treinados sobre a lida com o ego, enquanto resgatam o respeito de sua equipe. Sim, pois se o funcionário fala com o líder desta maneira, o respeito temporariamente inexiste.
Um funcionário que já conhece a rotina, desde que receba educação empresarial e treino emocional, será sempre novo, porque a diferença entre funcionário novo e funcionário antigo está apenas na expressão. Novas ou velhas são as escolhas empresariais.
Espere, mas faltou alguém aí: e o empresário, deve ser treinado?
A escolha, como sempre, é apenas sua!
Edilson Menezes é treinador comportamental e consultor literário. Atua nas áreas de vendas, motivação, liderança e coesão de equipes. ([email protected])