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Cadeia de fornecedores é “perigo oculto” para ESG das companhias

Marcos Maciel, CEO da CIAL Dun & Bradstreet do Brasil

O preço da ausência de uma visão holística responsável pode sair caro, já que hoje a sociedade tem na internet uma enorme vitrine de expressão, podendo ser severos os efeitos de uma exposição negativa 

Autor: Marcos Maciel

ESG se tornou uma buzzword no meio corporativo e é comum vermos o termo aplicado de maneira ampla demais a ponto de não expressar seu significado real. E essa dificuldade de compreensão é uma questão global, esbarrando em obstáculos como a falta de uma estrutura regulatória consistente o bastante para nortear globalmente as organizações na adoção de critérios e ações, em linha com as novas demandas ambientais, sociais e de governança.

Ainda assim, vemos uma mobilização crescente dos governos no sentido de formular políticas próprias e serem rigorosos na cobrança dos resultados. E, para complicar, medir os impactos dessas ações é uma parte espinhosa do processo em geral, assim como a divulgação de desempenho, pela carência de padrões de relatórios internacionalmente consolidados que garantam transparência, abrindo brechas para inconsistências nos dados.

Outro aspecto crucial a se considerar é que as corporações costumam raciocinar basicamente de suas portas para dentro. Mostram-se muito preocupadas em aprimorar e adaptar os processos internos, mas vêm negligenciando a importância de se criar e manter uma vigília também no que vem de fora para dentro.

Assim, as empresas subestimam os perigos ocultos que podem afetar diretamente seus esforços em sustentabilidade e responsabilidade corporativa, como o que reside na cadeia de fornecedores, um potencial terreno minado de riscos para o ESG.

Investidores, consumidores, órgãos reguladores e a comunidade em geral estão muito atentos aos movimentos das empresas e querem saber se e como essas práticas vêm sendo implementadas. Isso inclui a gestão ESG de terceiros, que deve ser encarada como parte integrante do compromisso da empresa compradora em atingir as suas metas, uma vez que suas ações dependem de toda a cadeia.

O preço da ausência de uma visão holística responsável pode sair caro, já que hoje a sociedade tem na internet uma enorme vitrine de expressão, e os efeitos de uma exposição negativa podem ser severos. Existe hoje pouca ou nenhuma tolerância do público com erros, o que pode tornar uma empresa alvo preferencial de punição coletiva e repelente de investidores.

Vemos comumente, nas redes sociais, organizações da sociedade vigilantes e a imprensa divulgando e denunciando maus comportamentos e problemas de conformidade. Isso sem falar das empresas que fazem uso pernicioso do marketing para se propagandear como agentes de transformação quando, na verdade, não geram impacto nem resultados reais, o conhecido greenwashing.

A cadeia de fornecedores representa riscos em diferentes esferas, sendo o mais popular deles, como sabemos, o ambiental, que envolve as emissões de carbono nos processos de produção, o mau uso dos recursos naturais e extração indevida, desperdício de materiais e até o estabelecimento de instalações em áreas de risco capazes de comprometer o abastecimento.

Questões sociais e trabalhistas de terceiros também precisam ser acompanhadas de perto pela empresa contratante. Condições de trabalho justas e seguras devem ser exigidas em toda a cadeia de fornecedores, considerando que a exploração de mão de obra, violações de direitos humanos e más condições de emprego em qualquer estágio dela podem causar abalo severo na reputação da empresa e implicar ações legais.

A pauta de direitos humanos na cadeia de fornecimento foi, inclusive, objeto de um estudo recente do Pacto Global da ONU do Brasil feito com 107 empresas de diversos portes e 12 setores, apontando que estão atentas para a temática, mas o nível de profundidade das políticas deixa a desejar.

A pesquisa mostra que, embora quase 90% dos consultados tenham selado um compromisso público de respeitar os direitos humanos reconhecidos internacionalmente, só 60% adotam métodos estruturados para identificar e avaliar riscos e impactos com base nos Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos (UNGPs). Quase todos os participantes disseram identificar e avaliar riscos nas próprias operações e 70% nas cadeias de suprimentos.

Agora, passando à esfera da governança, ela não é apenas fundamental para o ESG, como também os efeitos da ausência de padrões de transparência e ética em qualquer parte da cadeia de fornecedores podem contaminar o contratante.

Fuga dos investidores

Um dos resultados mais custosos da negligência na gestão de terceiros é a fuga dos investidores. O episódio da pandemia se estabeleceu como um alerta para as consequências graves dos principais riscos sistêmicos e, desde então, a comparação entre os riscos de uma tragédia sanitária e questões como as mudanças climáticas salientou a relevância dos investimentos ESG informados.

De acordo com a 6ª edição da Pesquisa Global com Investidores Institucionais feita pela EY, 90% dos investidores entrevistados disseram que, desde a crise da Covid-19, atribuem maior importância ao desempenho ESG das empresas no que diz respeito à sua estratégia de investimento e tomada de decisões.

Já 86% deles apontaram que uma empresa com um forte programa e desempenho ESG teria um impacto significativo e direto nas recomendações dos analistas atualmente. O estudo destaca que os investidores estão em busca de consistência e de comprometimento das empresas com ações reais. Assim, além de avaliar dados e divulgações de desempenho ESG, eles “estão procurando de forma ativa estabelecer a autenticidade e integridade das abordagens das empresas”, ajudando a fornecer responsabilidade para movê-las de declarações para execução.

Em processos como os de fusão e aquisição, os critérios ambientais, sociais e de governança também passaram a constar da pauta dos investidores e stakeholders, e progressivamente crescem em relevância. Sendo uma abordagem ainda um tanto recente, a precificação da operação considerando os pilares de responsabilidade corporativa está mais suscetível a variações, dependendo de uma série de fatores como o setor ou a região.

No entanto, as referências são inegáveis. Uma empresa que não está no controle de seus processos e avançando em desempenhar melhorias para a coletividade e o planeta têm maior probabilidade de gerar passivos ambientais e sociais. A custo, neste caso, do seu próprio valuation.

Dito tudo isso, não é exagero alertar que serão estranguladas companhias que ainda se encerram no limite de seus portões e não atentaram – ou subestimam – que os perigos podem ser importados da própria cadeia de fornecimento. A vigilância e a cobrança de conformidade de terceiros devem partir também das próprias contratantes. É preciso compreendermos em definitivo que, ao integrar fornecedores externos, estamos integrando também todos os riscos que vêm com eles. Contudo, apesar do desafio de monitorar as informações de ESG dos fornecedores, existem soluções tecnológicas que podem simplificar significativamente o controle e mitigação desses riscos.

Marcos Maciel é CEO da CIAL Dun & Bradstreet do Brasil.

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