Não só inteligentes, mas cidades inclusivas

CEO da Planet Smart City explica modelo que busca diminuir déficit habitacional, sem deixar de lado a qualidade de vida

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Susanna Marchionni, CEO da Planet Smart City no Brasil
Susanna Marchionni, CEO da Planet Smart City no Brasil

O que você acha de um imóvel a preço acessível dentro de uma cidade que conta com wifi, cinemas, bibliotecas, cursos, serviços integrados e um aplicativo específico para integração dos moradores em cada bairro, tudo gratuito? Essa é, em resumo, a proposta que já se concretiza em algumas regiões do país pela Planet Smart City, que pretende, com o slogan “Viver, mais do que morar”, tornar grandes loteamentos em conceito de “communities”, e que consegue operar com preços competitivos mesmo oferecendo tecnologia e serviços graças à aplicação permanente da economia de escala.  Os detalhes do empreendimento que já se viabiliza em cinco países foram compartilhados, hoje (20), por Susanna Marchionni, CEO da Planet Smart City no Brasil, na 269ª live da série de entrevistas dos portais ClienteSA e Callcenter.inf.br.

Depois de identificar Brasil, China, Índia, Nigéria e Rússia como os países com maior déficit habitacional no mundo para viabilizar o arrojada ideia de cidades inteligentes e acessíveis, a executiva italiana desembarcou, há oito anos, no Brasil atraída pela menor dificuldade em relação ao idioma. E nascia, assim, o projeto piloto, em Laguna, no Ceará. Co-fundadora, ela contou que a ideia nasceu de uma constatação: o modelo de cidade inteligente sempre remete à Masdar City, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. Ou seja, algo sempre destinado às classes sociais mais abastadas. “Entretanto, sabemos, obviamente, que o mundo não é feito somente de ricos. Percebemos que, apenas nos casos de Brasil e Índia, o déficit habitacional atinge, respectivamente, 8 milhões e 20 milhões de pessoas. Então, nosso CEO global, o co-fundador Giovanni Savio começou a estudar como seria possível se construir e oferecer smarts cities efetivamente acessíveis a todos.”

A conclusão foi desenvolver projetos visando ganhos em escala. Qualquer projeto da Planet, garantiu a executiva, é de grandes proporções, possibilitando praticar preços ao alcance da população. “Os números escancaram a realidade. Há hoje mais de 300 milhões de famílias no mundo que moram em situações bem precárias, com absoluta falta de serviços e de dignidade, sem condições de se sentirem de fato pertencendo àquele local. Como educar as crianças nesses ambientes? Portanto, construir projetos desse tipo representa muito mais que criar loteamentos, mas sim comunidades. Não no sentido que dá a esse termo no Brasil, mas no seu verdadeiro conceito que é o de inclusão de pessoas, a chamada ‘community’ nos países mais avançados.” De acordo com Susanna, para isso, a Planet é uma organização que se sustenta com recursos próprios e ela entende que, se fosse uma ONG, dificilmente teria a mesma perseverança que brota do espírito empreendedor.

 

Com escritórios em Turim e Londres, a gestão contempla a atuação de arquitetos, urbanistas e sociólogos entregando soluções que, assegurou a CEO, vem dando certo no mundo todo. “Costuma-se associar tecnologia a recursos de altos custos, mas, quando nos perguntam como conseguimos embarcá-las em nossos projetos, a resposta novamente está na economia de escala. Conseguimos oferecer wi-fi gratuito, bancos inteligentes, gamification, etc., incluindo um aplicativo específico de cada bairro, que é o que dá sustentabilidade econômica aos projetos sociais.” Com esse recurso, grupos de moradores conseguem não só compartilharem informações de interesse mútuo, mas também realizarem compra e venda de produtos e serviços locais. Indagada sobre a forma de captar investimentos para complementar os projetos pilotos no Brasil, a executiva relembrou o quanto isso é mais complicado que o normal no país. “Há aqui um sistema bancário muito atrasado. Ao contrário do que ocorre na Europa, por exemplo, o acesso ao crédito aqui é extremamente complicado. Houve um desespero no começo porque, mesmo com o nosso dinheiro acabando, perseveramos e, em 2018, fomos salvos pelo que denominamos de verdadeiro milagre.”

Ao contar essa história, Susanna fala do interesse surgido da parte do italiano Stefano Buono, um físico empreendedor que conseguiu vender sua empresa de radiofármacos à Norvatis, por US$ 3,9 bilhões e se tornou presidente do Conselho da Planet Smart City, investindo no empreendimento que chamou de o “negócio da sua vida”. Isso, de acordo com ela, mudou tudo. “Foi um impacto, pois permitiu que tocássemos a companhia da forma como a idealizamos. Dentro do propósito que torna a maneira de fazer business voltada para mudar de fato a vida das pessoas. Chegamos a ter hoje mais 400 profissionais contratados para implementar os projetos, todos efetivamente engajados, condição indispensável para estar nesse negócio. Mantemo-nos todos juntos, na alegria e na dor.”

Pesquisando a primeira área para implantação da smart city piloto no país, chegou-se à região de Laguna, no interior cearense e, de acordo com a CEO, foi um grande sucesso, tanto de vendas como de mídia. “O mercado imobiliário é, em geral, muito fechado, avesso a novidades, o que até nos favoreceu. A chave é desenvolver projetos que sejam de grandes dimensões e que apresentam alto índice de demanda por moradias. Por isso, a escolha dos locais é um dos aspectos mais relevantes e difíceis.” Instigada a falar das eventuais resistências do público sobre sua própria capacidade de adquirir moradia em uma cidade desse tipo e a traçar as etapas estratégicas de atração, a executiva contou que tudo começa pelo hub de inovação, uma construção de mil metros quadrados concentrando cinemas, bibliotecas, cursos, etc, tudo com acesso gratuito. “A partir daí, o trabalho é convencer os moradores da região de que se trata de algo real e sem qualquer truque por trás. Como resultado, agora temos crianças de favelas do interior do Ceará que falam inglês, que assistem a filmes. E, a partir daí, aos poucos os interessados em moradias na região vão entendendo como é possível adquirir um imóvel ao mesmo preço do que é oferecido pelos concorrentes, mas com infraestrutura e serviços diferenciados, incluindo o aplicativo, tudo à sua disposição sem custos adicionais.”

O vídeo com o bate-papo na íntegra está disponível em nosso canal no Youtube, o ClienteSA Play, junto com as outras 268 lives realizadas desde março de 2020. Aproveite para também se inscrever. A série de entrevistas encerra a semana, amanhã (21), com o “Sextou” que debaterá inovação e transformação, contando com a presença de Patrícia Maeda, diretora executiva de negócios do Grupo Fleury, Edinelson Santos, diretor de gestão e atendimento ao cliente da Via e Mateus Quelhas, head de inovação e novos negócios da ACE.