O que muda com o Pix?

CEO da Adiq/BS2 mostra os caminhos e os cuidados com novo meio de pagamento

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José Mario Ribeiro
José Mario Ribeiro

Apesar do grande alarde, o Pix ainda carece hoje de informações mais claras dos mercados aos consumidores. Até porque, sendo uma alternativa simples de transferência instantânea de valores e com funcionamento ininterrupto, essa nova modalidade irá provocar impactos na vida de consumidores e empresas, além de demandar a construção de garantias contra os riscos de fraudes, já que não possui os arranjos de retaguarda já consolidados nas demais soluções de pagamentos. Essas análises foram feitas, hoje (15), por José Mario Ribeiro, CEO da Adiq, empresa de adquirência do Banco BS2, durante a 140ª live da série de entrevistas dos portais ClienteSA e Callcenter.inf.br.

Logo na abertura, o executivo destacou que toda evolução do comércio em geral tem, necessariamente, de ser acompanhada pelas inovações e facilidades dos meios de pagamentos. “Essa é a importância do nosso segmento, criando alternativas para ajudar nesse crescimento e no conforto dos clientes. Desde os anos 1970 se iniciou a substituição do uso do dinheiro vivo, primeiro com os cheques, depois vieram os boletos, as transferências eletrônicas como o TED e o DOC, os cartões, até chegarmos agora nas soluções digitais de pagamento, como o Pix.” Ele ressaltou que, no Brasil, por suas dimensões e características, todas essas alternativas sobrevivem em maior ou menor grau. No auge do uso de cheques, em 2002, ele recordou que existiam 180 milhões deles processados ao mês. E, ainda hoje, representando 1% da matriz de pagamentos, são 30 milhões de transações com uso desse papel.

Respondendo sobre a novidade que vai ganhando adesão dos consumidores, que é o pagamento por aproximação, o executivo pontuou que trata-se apenas de uma evolução dentro de uma solução que já existe, que são os cartões. Já o Pix, esse sim representa uma modalidade totalmente nova como solução de pagamento. Ao descrever as etapas da constituição desse novo meio, José Mário explicou que, ao ser criado pelo Banco Central como forma de transferência instantânea de valores, praticamente se impõe a todos os bancos e fintechs. Inicialmente será entre pessoas físicas, depois entre consumidores e empresas e assim por diante.

A transferência do valor transacionado será imediata apenas com o uso de QR Codes nos celulares ou outras chaves de acesso, como CPF, e-mail e número de telefone. Como, para que isso aconteça, é  necessário que existam as contas para a saída e entrada do dinheiro, a fase atual é a de cadastramento para geração dessas chaves que substituirão todos os dados que antes tinham de ser digitados. “Isso acarretará um impacto no dia a dia das pessoas e é preciso esclarecer bem as coisas. Ao contrário do que se diz em algumas redes sociais, não irão desaparecer as outras modalidades de soluções de pagamentos e transferências. Dentro da configuração da matriz de formas de pagamentos atualmente no país, 39% se concentram nos cartões de débito e crédito, 31% ainda são em dinheiro, 1% em cheques, 9% em outras modalidades e assim por diante.”

O Pix vem, na concepção do CEO – e é o que, segundo ele, se registra nos países onde existe, como China e Índia – para substituir os pagamentos em dinheiro e  diminuir a movimentação com o cartão de débito. Vai apenas instituir um novo share dos meios de pagamento nos mercados. O cartão de crédito continuará firme e forte, na visão dele, pois as transações por esse meio fazem parte do fluxo de pagamentos dentro do planejamento das pessoas e empresas, como um capital de giro. Isso acontece ao se conciliar as datas das faturas com o recebimento de salários ou remunerações em geral.

Ainda de acordo com o executivo, o BC estabeleceu algumas regras de tal forma que não existam taxas para o consumidor no ato do pagamento. Mas os custos de transação existem, embora diminuídos, e quem vai arcar são as pessoas jurídicas. A indústria de meios de pagamento vai ter uma perda, porque ainda 20% dos pagamentos que aconteciam em dinheiro passarão para a nova modalidade.

“Haverá uma curva de aprendizado de todos os lados”, prevê. “Hoje os consumidores estão confusos, até porque alguns bancos estão lançando o Pix com outro nome, gerando ainda mais dúvidas no mercado. E o grande risco é o surgimento de fraudes. Toda nova solução de pagamento vem acompanhada do esforço do fraudador para se aproveitar de algo ainda não testado e consolidado. Por exemplo, a TED tem um horário de funcionamento. No Pix é sem interrupção. Então, seu dinheiro estará dia e noite sujeito à ação dos mal intencionados.” Dessa forma, avalia José Mario, será preciso evitar que ele surja com essa imagem de alto risco, pois comprometeria seu desenvolvimento.

Posicionando-se em relação a uma das indagações surgidas quanto aos pagamentos via Whatsapp, o CEO alertou para as consequências advindas dessa eventual liberação. “Embora seja de outro formato, as características dessas transações se assemelham muito às do Pix. Aconteceriam de celular para celular. Hoje, as soluções de pagamento contam com toda uma rede de instituições governamentais, bandeiras, credenciadoras, etc., que são uma garantia de redução de riscos. Todo esse arranjo ficaria de fora, deixando os valores circulando tão somente pelos caminhos de uma única organização privada, que é o Facebook.” Ele finalizou o bate-papo falando de mais novidades no sistema, sempre pensando na perspectiva de maior conforto aos clientes e facilidades aos empreendedores. E abordou, por exemplo, as possibilidades do chamado Open Banking, que permite a portabilidade das contas entre os bancos.

O vídeo com a entrevista, na íntegra, está disponível em nosso canal no Youtube. Aproveite para também se inscrever e ficar por dentro das próximas lives. Amanhã (16), a série de entrevistas encerra a semana com um debate sobre a dinâmica do mercado de luxo via CX, reunindo Daniel Funis, VP da Farfetch Latam, Roberto Carvalho, diretor comercial da BMW, e Rosana de Moraes, professora, consultora e pesquisadora.