Claudia Storch, diretora de operações da Pluxee Brasil

Entre flexibilidade e pertencimento: como equilibrar desejo dos trabalhadores por liberdade e conexão 

O profissional contemporâneo quer autonomia para organizar sua vida, mas também deseja sentir que faz parte de algo maior

  Autora: Claudia Storch

Durante muito tempo, engajamento foi sinônimo de intensidade. Estar sempre disponível, colocar o trabalho no centro da vida, medir comprometimento por horas dedicadas. Esse modelo moldou culturas e lideranças por décadas. Mas o cenário mudou. 

Hoje, o desejo predominante não é escolher entre carreira e vida pessoal, e sim integrar as duas dimensões de forma saudável. A discussão deixou de ser sobre presença e passou a ser sobre sentido, autonomia e conexão. O desafio das empresas já não é extrair mais entrega, e sim construir relações mais sustentáveis. 

Uma pesquisa recente conduzida pela Pluxee em parceria com o Instituto Ipsos ajuda a iluminar esse movimento. No Brasil, 57% dos profissionais priorizam a vida pessoal em relação ao trabalho, e apenas 12% colocam o trabalho no centro de suas vidas. Ainda assim, 88% afirmam gostar da empresa onde atuam, mas 29% permaneceriam nelas exclusivamente enquanto tiverem interesse. A mensagem é clara: gostar da organização não significa abrir mão da própria individualidade. O que está em jogo é o equilíbrio entre flexibilidade e pertencimento. 

Engajamento sustentável é vantagem competitiva 

O profissional contemporâneo quer autonomia para organizar sua vida, mas também deseja sentir que faz parte de algo maior. Quer liberdade para estabelecer limites, mas espera reconhecimento genuíno. Quer flexibilidade, mas não aceita indiferença. 

Três fatores aparecem como decisivos para sustentar o engajamento: reconhecimento, percepção de cuidado e autonomia. Não se trata apenas de remuneração, embora ela siga relevante. Trata-se da experiência cotidiana, do ambiente acolhedor, da escuta ativa, da confiança para decidir. 

Esse ponto dialoga diretamente com Customer Experience (CX). Não existe experiência do cliente consistente sem experiência do colaborador estruturada. Empresas que desejam oferecer jornadas fluidas, atendimento empático e marcas com propósito precisam garantir que esses atributos sejam vividos internamente. Cultura não é discurso, é prática diária. 

Outro dado do levantamento reforça essa lógica: embora 63% dos brasileiros afirmem trabalhar principalmente para pagar as contas, mais da metade diz se sentir motivada pelo ambiente e pelos colegas. As relações continuam sendo um motor poderoso de engajamento. E equipes que se sentem reconhecidas tendem a refletir esse cuidado na relação com o cliente. 

Antes mesmo de avançar em agendas mais amplas, como ESG ou inovação, os trabalhadores brasileiros esperam o básico: condições justas, segurança e estabilidade. O pertencimento começa pela confiança. E a confiança começa pela coerência. 

Não existe um único modelo de engajamento 

Um dos achados mais relevantes do estudo é a identificação de oito perfis de trabalhadores brasileiros. Eles mostram que a força de trabalho é diversa em prioridades e expectativas, o que exige estratégias menos padronizadas e mais adaptáveis. 

  • Intencionais (23%): priorizam a vida pessoal e desejam coerência entre discurso e prática para se engajar. 
  • Independentes (18%): veem o trabalho de forma funcional e valorizam autonomia. 
  • Estáveis (17%): buscam previsibilidade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. 
  • Objetivos (11%): focados em eficiência e clareza na relação com o trabalho. 
  • Workaholics (10%): colocam o trabalho no centro da vida, embora já não representem a maioria. 
  • Conectados (9%): equilibram trabalho e vida pessoal e querem participar ativamente. 
  • Multiengajados (7%): priorizam o trabalho, mas se mobilizam quando percebem impacto real. 
  • Comunitários (5%): valorizam fortemente pertencimento e impacto coletivo. 

Esse mosaico revela que não há fórmula única. O que engaja um perfil pode não mobilizar outro. Para empresas orientadas à experiência do cliente, essa constatação é estratégica. A mesma lógica de personalização aplicada à jornada do consumidor precisa ser considerada na jornada do colaborador. 

Flexibilidade não se resume a modelos híbridos. É oferecer margem para que cada profissional organize sua energia ao longo dos ciclos da vida. Pertencimento não é apenas discurso cultural. É garantir que cada pessoa se sinta vista como indivíduo e valorizada como parte do coletivo. 

No fim, equilibrar liberdade e conexão deixou de ser uma pauta exclusiva de RH. Trata-se de uma agenda de negócio. Organizações que compreendem essa dualidade fortalecem sua cultura, reduzem ruídos internos e constroem experiências mais consistentes para o mercado. 

Porque experiência, seja do cliente ou do colaborador, é sempre reflexo da qualidade das relações que a empresa escolhe cultivar. 

Claudia Storch é diretora executiva de operações e experiência dos clientes na Pluxee.

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