Joana Henklein, diretora da Accenture

IA no atendimento por voz: “Vamos conversar e resolver logo?”

Quem continuar duvidando que é possível fazer atendimento com voz sintética, com custo adequado e em escala, vai perder eficiência rapidinho e vai perder cliente

Autora: Joana Henklein

Oi, posso te mandar um áudio? Eu até poderia te escrever… mas é que a mensagem de texto perde metade do tempero. Você sabe, né? Conversa, no Brasil, é que cria conexão, resolve problemas, fecha negócios. 

A gente resolve a vida conversando. Faz amizade, desarma tretas, resolve confusão, fecha negócios, combina as mais variadas coisas. Conversa longa é ótima, mas quando dá problema de verdade, ninguém quer novela ou série que precisa de 263 episódios para saber o final. A gente quer uma conversa direta: “entende o que eu preciso, resolve logo e seguimos”.

Brasileiro é do áudio. A gente manda quatro vezes mais mensagens de voz no WhatsApp do que em qualquer outro país do mundo. Não é preguiça de digitar, não, mas é que voz carrega intenção, emoção, contexto. Texto até que é rápido, mas muitas vezes incompleto.

E é aí que mora o drama do atendimento. Porque quando você tá com um problema, você não quer apertar 47 opções, nem ficar repetindo CPF como um mantra. Problema é para se resolver rápido, ninguém quer cair naquele labirinto sistêmico que te faz pensar “eu tô falando com um robô que não me entende”. Esse tipo de automação irrita o consumidor e destrói a relação com a marca. Muita solução hoje em dia só resolve o simples… porque quando complica, sai todo mundo frustrado e pede para falar com um humano.

Não é só pela solução técnica. É porque, na nossa cabeça, um humano pega o tom, saca a urgência, entende o “eu estou desesperada, me ajuda”. Ainda mais num país gigantesco como o nosso, cheio de sotaque e jeito de falar diferente. A gente não quer ser só atendido. A gente também quer ser entendido.

Até ontem as empresas tinham poucas opções: você escolhe atendimento “de texto” (barato, mas pouco eficiente) ou você banca voz humana (caro e difícil de escalar). E os robôs de voz até pouco tempo atrás, meu amigo e minha amiga, pareciam até um quadro de programa de humor: engessado, duro, “não entendi sua resposta, pode repetir?”.

A virada é que agora, com IA generativa (sim, a famosa IA de que todos estão falando), a voz sintética deixou de ser “voz de robô”. Tá natural, com ritmo, pausa, sotaque, jeitinho. E melhor, com resposta rápida. Dá para ter eficiência e conexão com o cliente. 

Agora, sem rodeios, quem continuar duvidando que é possível fazer atendimento com voz sintética, com custo adequado e em escala, vai perder eficiência rapidinho e vai perder cliente.

E o Brasil tem tudo pra puxar essa onda. A gente adotou PIX numa velocidade absurda porque era simples, rápido, sem complicação. (Você sabia que o Brasil é uma das referências em pagamentos instantâneos? Tem um monte de gringo querendo saber qual é a receita do que fizemos aqui). Então imagina quando o consumidor perceber que pode falar com um agente de voz, mesmo sintético, que é educado, entende o que você falou do seu jeito e resolve na hora? Vai virar hábito. 

Agora, colega, veja o ponto que pouca empresa tá encarando: o desafio também é de gestão, não vai pensando que é só tecnologia. Vai ter humano e agente sintético trabalhando lado a lado. Vai precisar de time de conversa (sim, conversa como disciplina), conhecimento organizado para ser consumido por gente e por IA, monitoria, governança… e um modelo operacional novo. Afinal de contas, vamos ter que gerenciar pessoas e máquinas.

Se tem um país com vantagem competitiva nisso é o Brasil. A gente sabe ter um dedo de prosa. E empresa que entender isso primeiro vai sair na frente, não por ter “IA”, mas por entregar o que o brasileiro sempre quis: resolução rápida, com um mínimo de humanidade no caminho. 

Agora que percebi que esse áudio ficou longo. Podia ser um podcast? Podia. Quem sabe não é uma boa ideia? Um podcast sobre atendimento conversacional? Afinal o sucesso dos podcasts no Brasil é impulsionado pela alta conectividade. A cultura do bate-papo e a diversidade de temas geraram grande proximidade com o público, tornando o país um dos líderes mundiais em consumo. Mas me deixa parar por aqui, no próximo áudio eu te explico direitinho esse negócio de podcast.

Joana Henklein é diretora da Accenture.

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