Thelma Valverde, CEO da eMiolo

Paradoxo da personalização: quando dados demais criam experiências de menos

A próxima fronteira da personalização é sair da lógica do rastreamento e entrar na lógica da compreensão

Autora: Thelma Valverde

Sempre ouvi que a personalização seria o ápice da experiência do cliente. Quanto mais dados, mais precisão. Quanto mais precisão, mais relevância. Mas, na prática, vejo surgir um paradoxo que precisamos encarar: estamos entregando experiências personalizadas ou apenas respostas mecanizadas baseadas em padrões de comportamento?

A hiperpersonalização baseada exclusivamente em dados é uma evolução muito importante, mas tem um porém: ela se limita ao que o consumidor fez ontem, ao clique que já aconteceu, ao histórico que já foi registrado. O resultado é uma experiência que parece sofisticada, mas que, no fundo, é reativa e previsível. Falta algo essencial: compreender quem está do outro lado.

O comportamento de um cliente é um sinal. O estado emocional dele é o contexto. Uma pessoa que abandona um carrinho de compras pode estar indecisa, frustrada, distraída ou simplesmente sem tempo. O dado é o mesmo, mas a emoção, não. E quando tratamos emoções distintas como se fossem idênticas, perdemos a chance de construir relações genuínas.

É aqui que a discussão sobre IA emocional ganha relevância. Depois de anos investindo na coleta massiva de dados, chega o momento de perguntar: e a parte humana? Nesse contexto, a IA emocional não se propõe a “ler mentes”, mas a identificar nuances, variações de tom, sinais de intenção e estados afetivos que os modelos puramente comportamentais não captam. É a diferença entre entender o que eu fiz e perceber como eu estou.

Acredito que a próxima fronteira da personalização é essa: sair da lógica do rastreamento e entrar na lógica da compreensão. A tecnologia já nos permite identificar quando um cliente está irritado, ansioso ou engajado. O desafio agora é transformar essa capacidade em experiências mais humanas, responsáveis e respeitosas.

Em 2026, a personalização não será mais sobre o que você comprou, mas sobre como você se sente. As empresas que prosperarão serão aquelas que usarem a tecnologia não para segmentar clientes, mas para entendê-los em um nível mais profundo.

Isso significa: personalização proativa, onde em vez de reagir a um carrinho abandonado com um e-mail genérico, que tal uma mensagem que reconhece a possível frustração e oferece ajuda? É importante também criar jornadas adaptativas, onde se um cliente demonstra sinais de confusão em um site, a interface pode simplificar ou oferecer um chat com um humano, e também uma comunicação empática, onde o tom pode se ajustar ao estado emocional do cliente, tornando a interação mais acolhedora.

O paradoxo da personalização se resolve quando paramos de tratar clientes como conjuntos de dados e começamos a vê-los como pessoas. A tecnologia, quando usada com responsabilidade, pode ser a ponte para essa nova era de experiências genuinamente humanas.

Thelma Valverde é CEO da eMiolo.

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