O Brasil a favor do Telemarketing

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Há poucos dias fomos “coroados” com a regulamentação de uma lei no município de Porto Alegre que tenta reproduzir as restrições a atividade de telemarketing recentemente adotadas nos EUA. Essa lei em sua maior parte traz um rosário de incorreções e preconceitos, que culminaram com a classificação da atividade como “invasiva” e “desintegradora das relações familiares”. Juntamente com ela, choveram reportagens nos mais diversos veículos da imprensa brasileira classificando os trabalhadores desse setor – os operadores – como “chatos” e o seu ofício como “um dos empregos mais humilhantes e desagradáveis que existem”. E por ultimo agora o excelentíssimo deputado estadual de São Paulo Romeu Tuma está apresentando um projeto de lei com o mesmo teor da lei de Porto Alegre.
O erro primário dessa lei e de todos esses artigos e comentários são transplantar mecanicamente a realidade norte-americana para o Brasil. Para começar, a atividade do telemarketing no Brasil vem se destacando nas últimas décadas como um fortíssimo gerador de empregos, em uma situação de rígida estagnação econômica. As empresas de call center devem chegar ao final de 2003 gerando cerca de 500 mil postos de trabalho diretos em todo o Brasil, contra 465 mil no ano passado. O número de vagas no setor cresceu nada menos que 198,01% entre 1997 e 2001 (dados da ABT-Associação Brasileira de Telemarketing), enquanto o nível de emprego na indústria brasileira caía 23,32% no país e, na área de serviços, crescia apenas 11% no mesmo período.
Estivesse o excelentíssimo vereador gaúcho (vereador eleito pelo PT que enquanto partido comprometeu-se a gerar empregos como sua bandeira principal) folheando os cadernos de empregos dos jornais de seu país veria que a função de operador de telemarketing encabeça todas as listas de ofertas. Todas, repito.
E quanto à qualidade do trabalho? Classificar um ofício decente e promissor como uma “atividade desintegradora das relações familiares” é, no mínimo, uma gigantesca falta de respeito para com centenas de milhares de pessoas que saem de suas casas todos os dias pensando como exercer melhor seu trabalho. Não sabe o vereador que o telemarketing é a porta de entrada de inúmeros jovens no mercado de trabalho. Gente que poderia estar engrossando as filas do desemprego ou simplesmente cair na marginalidade… Quanto vale isso para as pessoas, suas famílias e seu país?
Será que o incomodo – se realmente ele existe – de um telefonema é realmente tão “desintegrador das relações familiares” como o desemprego?
O Brasil é um país com pouquíssima oferta de emprego formal para o publico jovem, principalmente se estamos falando do primeiro emprego para um jovem sem formação universitária. E maior parte dos programas de “Primeiro Emprego” que estão sendo divulgados, tem um problema de conceito, oferecem o primeiro emprego, mas não garantem o segundo, uma vez que não existe uma preocupação com a formação sólida desse novo profissional.
Nesse contexto, as empresas call center podem ser uma das melhores alternativas para essa entrada no mercado de trabalho. Hoje ao entrar em várias empresas do setor, um jovem tem a oportunidade de além de receber uma formação profissional sólida, cursar uma faculdade dentro das instalações da própria empresa. Mães que retornam ao mercado de trabalho depois de criar seus filhos também compõem uma fatia importante da mão de obra no setor. O mesmo vale para profissionais com mais de 50 anos de idade.
Estarão todos esses profissionais apenas se dedicando a um trabalho “humilhante e desagradável”? Estou certo que não? É só observar sua produtividade e disposição. Até por conta dos inúmeros projetos de apoio às pessoas que as empresas de telemarketing vêm desenvolvendo em áreas tão distintas como universidade corporativa, laboratórios de arte, até suporte a jovens mães; sem contar as dezenas de iniciativas comunitárias implementadas em todo o Brasil.
Mas, sejamos realistas, será que todas as operações de call center no Brasil são desenvolvidas de forma ética, responsável? Não. E são as empresas que pilotam telefonemas ao cliente em horários impróprios, que compõem o verdadeiro contingente de “chatos”, irritantes. O que fazer sobre isso?
A questão é que o excelentíssimo vereador, ao misturar as realidades do Brasil e de seu país de adoção, esqueceu de levar em conta uma das melhores invenções do mercado norte-americano, a auto-regulamentação. Foi esse eficiente mecanismo – capaz de incorporar o que há de mais moderno em técnicas de pesquisa e controle – que permitiu ao mercado norte-americano de propaganda, o maior e mais aberto do mundo, estabelecer regras claras e seguras de comportamento.
Nós, titulares das empresas de telemarketing, somos os maiores interessados em elaborar uma regulamentação séria, em eliminar os “chatos”, as empresas que irritam o consumidor. Muito ao contrário, nossa função é dar novas opções aos consumidores. Somos um setor sólido, que gera empregos decentes e bem remunerados, paga impostos e colabora para ampliar as opções do consumidor brasileiro. A auto-regulamentação é a única forma de separar o joio do trigo. E não uma lei como essa, preconceituosa e elaborada sem que o setor fosse convidado a participar da discussão.
E, por ultimo, sobre seguirmos os EUA e criarmos uma lista de pessoas que não querem receber ofertas por telemarketing ativo, devemos voltar a discutir essa possibilidade sim, mas isso deve ocorrer assim que atingirmos a mesma renda per capita, a mesma taxa de juros, o mesmo índice de desemprego, o mesmo nível de formação universitária e o mesmo índice de criminalidade desse EUA.
*Alessandro Goulart é CEO da Softway Contact Center