Qual é, afinal, o melhor momento da recolocação?

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Nem tudo é o que parece ser. Certa vez, uma multinacional líder de mercado se viu na necessidade de demitir cerca de 60 profissionais de supervisão e gerência no Nordeste. Meados da década de 90. Coisa mais que comum. Cortes coletivos. E, mais uma vez, eu era chamado para ajudar. Cabia a mim a tarefa de administrar a comunicação das demissões, motivar os “desesperados”, e ajudar a todos no desafio de encontrar uma nova colocação ou abrir um negócio próprio.

Nesses casos, você não pode demitir um por um. Tem que ser em bloco. Pra não haver boatos nem vazamentos para a imprensa. Enfim, a coisa é difícil e tem que ser bem feita. Então, convidamos os futuros “degolados” para passar um fim de semana num hotel no Recife. Eu me tranquei com eles todos numa sala. E fuzilei: “A organização está passando por uma reengenharia e vocês estão todos demitidos”.

Um monte de gente da empresa, lá fora, esperando para ver o que iria acontecer. Momento nervoso. Suspense. Foi quando me tornei o palestrante aplaudido de forma mais rápida no país. Geralmente, quando a consultor acerta a mão ele recebe aplausos no fim da apresentação. Mas, comigo, naquele dia, bastaram apenas cinco minutos para irromper naquela sala uma ruidosa manifestação de aprovação.

É que, logo depois do anúncio das demissões, quando eu comecei a falar que “o mundo não acabava, mas começava de verdade” para aqueles profissionais, um dos presentes, lá do fundo do recinto, gritou: “Cala a boca, professor, a empresa acaba de enfiar uma faca nas nossas costas, e nada do que o senhor disser vai mudar isso”. O resto da sala, numa total aprovação ao protesto do colega, aplaudiu. Aos gritos. E lá fora, os que aguardavam, tensos, só ouviram a ovação e ficaram atônitos. “Puxa, o professor já está agradando! Como ele conseguiu?”

A verdade é que conseguimos contornar aquilo e todos os demitidos, sem exceção, ficaram numa situação melhor depois de aprenderem o “caminho das pedras”. Tanto que aquele projeto, junto com outros que fizemos para aquela organização, acabou ganhando o prêmio Top de RH. Porque não abandonou seus colaboradores depois da demissão. Mais uma experiência que me fez indagar o seguinte: por que as pessoas sofrem tanto com uma demissão? Será que precisamos ficar desempregados para buscar uma recolocação?

Certa vez, realizei uma pesquisa com cerca de mil profissionais para saber o que mais os incomodava no emprego. E o item que se destacou foi “falta de perspectiva na carreira”. Na minha opinião, o pior dos mundos para um profissional é ele agüentar um emprego só por causa da remuneração. Ele não tem a mínima idéia para onde está indo. Tolera um alto estresse, provavelmente numa área fora dos seus reais talentos, numa organização que não o valoriza. Mas suporta tudo porque tem que “comprar o leite das crianças”.

Como diz o superguru Tom Peters, vivemos agora num mundo maluco. As mudanças podem acontecer a qualquer momento. Uma única pessoa pode, hoje, sozinha, destruir uma torre nos Estados Unidos, ou abalar toda a indústria fonográfica (Kazaa) ou a indústria da telefonia (Skype). Mais do que nunca se torna imperativo que o profissional que se preza tem que cuidar ele mesmo da sua carreira. Por melhor que esteja empregado, tem que continuar atualizando o currículo, aprendendo línguas, estudando e, sem dúvida, sondando o mercado. Sabendo que – eis o pulo do gato – o mercado de trabalho valoriza mais o profissional que está empregado. É cruel, mas é verdade.

Quem espera perder o emprego para começar a pensar no seu grau de empregabilidade, acaba sofrendo. A saída, hoje, é vestir duas camisas. A da empresa e a sua. Enquanto você cria, produz e agrega valor à organização que está pagando seus salários, deve – da mesma forma – ir acrescentando valor à sua carreira também fora da empresa. Quando você distribui um currículo – ou faz um contato – e vem o retorno, ficará, no mínimo, sabendo quanto vale no mercado. Porque se acomodar num emprego é uma ilusão. O melhor momento para se buscar uma recolocação é quando estamos empregados. Porque nem tudo é o que parece ser.

Claudir Franciatto é diretor da FranciattoConsulting, parceiro da KS Consulting e da Bolsa de Empregos/callcenter.inf.br. E-mail: [email protected]