Mais ecossistema de inovação, menos “egossistema”

Líderes da LuizaLabs e Tecnisa debatem os conceitos que edificam uma empresa realmente antenada já com o futuro

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Talita Paschoini, diretora de tecnologia do LuizaLabs, e Romeo Busarello, vice-presidente de marketing e transformação digital da Tecnisa
Talita Paschoini, diretora de tecnologia do LuizaLabs, e Romeo Busarello, vice-presidente de marketing e transformação digital da Tecnisa

A inovação se tornou hoje um verdadeiro skill, praticamente na mesma configuração de importância que formou recentemente o espírito de empreendedorismo dentro das organizações. A inteligência coletiva, aquela que constrói o ecossistema de uma organização inteira voltada à criatividade, será sempre maior do que o brilhantismo de um colaborador isolado. Tudo isso se expressa na verdade de que educação e tecnologia de gestão se tornaram os dois fatores primordiais para que o digital, já quase um commodity, seja empregado em soluções relevantes para o novo consumidor pós-pandemia. Essas são apenas algumas das reflexões que permearam o debate, de hoje (29), com Talita Paschoini, diretora de tecnologia do LuizaLabs, e Romeo Busarello, vice-presidente de marketing e transformação digital da Tecnisa, durante o “Sextou?” na 195ª live da série de entrevistas dos portais ClienteSA e Callcenter.inf.br.

Com 15 anos de carreira dentro da Magalu, Talita pôde vivenciar vários ciclos de inovação da organização, passando pela transformação digital e os requintes do novo e-commerce, que já nasceu multicanal, até chegar ao ecossistema atual fincado no viés de gerar criatividade permanente. Na sua visão, existem hoje, entretanto, algumas questões particulares, sendo a principal delas a noção de urgência em tudo o que se faz. “Quando percebemos uma necessidade do consumidor”, ressaltou, “isso precisa ser colocado rapidamente no mercado e exatamente com as funcionalidades que eliminem aquela dor demonstrada pelo cliente.” Detalhando o andamento do laboratório de inovação e produtos digitais da empresa, que é o LuizaLabs, ela relatou: “passamos recentemente pelos desafios criados pela necessidade de fechamento das lojas na pandemia. E as respostas demandavam ir além da simples migração ao modelo de home office”.

O principal era criar condições adequadas não só para que os vendedores se mantivessem produtivos, por meio do Whatsapp e outras ferramentas, mas também que os produtos chegassem com a máxima rapidez possível à casa do consumidor. “Além disso, foram surgindo os parceiros, microempreendedores, etc., e notamos que cada um dos novos processos e projetos levavam apenas algumas semanas para se concretizar. Em resumo, foi agregado ao DNA da Magalu, que é o da inovação, também o fator agilidade.” Esse é o novo normal do dia a dia atual, destacou a executiva. Na sua concepção, a régua da inovação com velocidade subiu, pois a pandemia ajudou que todos os agentes envolvidos na relação de compra e venda se comunicassem mais e com mais facilidade.

Por sua vez, Romeo complementou afirmando que o digital se tornou algo muito acessível, mas que passou a exigir a necessidade de se olhar mais atentamente ao consumidor. “Mais importante do que possuir armas digitais é ter uma alma digital”, exclamou o VP, explicando que, até o início do ano passado, cada iniciativa ou hábito adquirido demandava uma ação de locomoção, deslocamento e tempo gasto. “Isso tudo hoje foi digitalizado por ferramentas que aproximam pelo virtual, mas as pessoas ainda não estão educadas para agirem adequadamente nessa nova realidade. Não estão preparadas.” Segundo comparou, na China hoje se formam anualmente 3,5 milhões de pessoas em STEM, sigla para Statistics, Techology, Engeenaring, Arts and Mathematics, enquanto, no Brasil, essa quantidade de formandos chega a no máximo 70 mil. “Existe um descasamento de competências.” Por isso, entende ser preciso que todos se apresentem hoje com uma espécie de coração de estagiário. E destacou como exemplo sua atividade de um professor e executivo que exigiu grande empenho para se adaptar rapidamente às mudanças impostas pela necessidade de utilizar bem o digital. “É um esforço cognitivo enorme, com uma grande força de vontade para o conhecimento do novo. O que é uma verdade hoje pode ser um absurdo daqui a uns seis ou sete meses.”

A diretora do LuizaLabs acrescentou que, antes, havia organizações que quebravam simplesmente porque faziam as coisas erradas. Hoje, podem falir porque ficam tempo demais fazendo as coisas certas. Ou seja, não acompanharam a mudança de mindset. “Porque a transformação digital passa por uma tomada de decisão mais descentralizada e ações interconectadas. As organizações que se prepararam assim podem agora surfar nas oportunidades que representaram o lado positivo da pandemia.” Na avaliação de Talita, em alguns casos, o hábito do cliente mudou tanto que muitas empresas tiveram que remapear completamente esse perfil para continuarem sendo relevantes. “Acabamos vendo isso em termos de prática nos últimos tempos. Em resumo, a inovação passou a ser uma necessidade como qualquer outra área de gestão da empresa. É algo que se incorporou ao dia a dia. Identificar hoje uma best practice já é fazer algo que certamente está sendo superado, porque outros já adotaram e virou passado.”

Junto à isso, foi colocado pelo VP da Tecnisa, que a inteligência do grupo é sempre mais inteligente que qualquer inteligência de um dos agentes isolados no processo. Assim, não existe mais o gênio solitário que tem de pensar pela empresa. E mencionou o quanto está superada a fórmula PCC – Planejamento, Comando e Controle. Hoje, quanto menos controle, mais aprendizagem. “Já em 2016, assistindo a uma apresentação no Vale do Silício, o palestrante deixava claro que a experiência, por mais ampla que seja, fica antiga muito rapidamente. Agora, notadamente no pós-pandemia, talvez o que realmente conta é o que vivenciamos apenas nos últimos três anos. Um conteúdo de cinco atrás já se torna hoje quase todo obsoleto. Portanto, educação é agora a grande premissa. Dentro de um espírito de ecossistema e não de egossistema.” Ressaltou ainda que vê na sua organização, assim como na Magalu, relevantes exemplos dessa nova realidade.

Uma adoção inteligente é a de descentralizar a inovação e permitir que o conhecimento parta de todas as áreas, analisou a diretora do LuizLabs. O que levou Romeo não só a concordar, como concluir, nessa linha, que a grande tecnologia do século 21 é a de gestão. Mencionou, como exemplo, o Nubank, que, no seu entendimento, se tornou uma empresa diferenciada e valiosa apenas por causa do novo modelo de gestão. “Porque a mesma tecnologia deles qualquer outra organização do ramo pode ter. Mas eles correspondem bem a uma máxima importante: onde não posso ser, prefiro não estar, ou seja, as organizações têm de saber dessa verdade antes de contratar alguém. Hoje os melhores engenheiros formados na Politécnica, por exemplo, preferem trabalhar no Nubank, onde certamente há líderes inspiradores. E não onda haja restrições e limitações completamente irrelevantes para as metas da organização.”

Chegando perto do encerramento do debate, Talita lembrou que, assim como o mercado consumidor é formado por uma grande riqueza de pessoas diferentes, quanto mais plural a empresa for, melhor. “O cliente escolhe a organização, muitas vezes, pelo propósito que ela defende ou a rejeita por determinada imagem que passa. Nesse universo, os profissionais também querem ter essa opção de uma empresa na qual se sentirão confortáveis para criar e contribuir. Trata-se aqui de um potencial enorme para gerar valor.” Para ela, a gestão tem de ser muito mais voltada para mobilizar dentro de objetivos e propósitos do que ficar controlando. “O líder é aquele que leva a pessoa mais longe do que onde ele conseguiria chegar sozinha”, frisou a executiva, acrescentando ser a inovação, hoje, um skill, e tão importante quanto tem sido o do empreendedorismo. Por fim, concordou com uma das perguntas sobre cada vertical da empresa possuir mesmo um espírito de startup. Enquanto para Romeo, tudo isso se expressa numa verdade: “enquanto executivo, sou avaliado pela capacidade de suportar incertezas. Ou seja, a capacidade de prosperar em um futuro sempre incerto”.

O vídeo com a entrevista na íntegra está disponível em nosso canal no Youtube, o ClienteSA Play, junto com as outras 194 lives feitas com desde março de 2020. Aproveite para também se inscrever. A série de entrevistas terá sequência na segunda-feira (01), recebendo Carlos Alves, diretor executivo corporativo de inovação e tecnologia da Riachuelo, que falará da transformação de valor na jornada com o digital; na terça será a vez de Paula Lorenzi, head de UX do Bradesco; e na quarta, Hugo Rodrigues, CEO da Printi.