Razão e emoção

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Tecnofilia – o amor pela tecnologia – é uma paixão perigosa quando se trata de adotar novos paradigmas ou recursos de tecnologia da informação – TI. Os investimentos em TI são altamente significativos no contexto da nossa economia. Estudos recentes mostram que o Brasil está entre os 10 maiores orçamentos dessa indústria mas, nem por isso, o volume investido em TI tem deixado nossas organizações mais ágeis e produtivas.

Fatores diversos podem ser relacionados a este fenômeno e, dentre os associados à tecnologia da informação estão: Curva de aprendizagem mais acentuada para a tecnologia estrangeira; Baixo índice de produção científica no Brasil; Pequeno orçamento de treinamento; Baixa qualidade da educação formal; Aplicação inadequada da tecnologia.

Dentre os fatores citados, três fogem do controle e ação dos tomadores de decisão sobre a compra de tecnologia. Eles são exógenos à organização. Dois deles, pequeno orçamento de treinamento e aplicação inadequada da tecnologia, são endógenos, e isto significa que podemos exercer influência sobre eles dentro das nossas organizações. Neste artigo vou me ater ao segundo destes fatores endógenos: a aplicação inadequada da tecnologia.

Diferentes paradigmas e tecnologias e, conseqüentemente, os produtos que os implementam estão disponíveis para o mercado comprador de tecnologia. Por isso um processo de análise da aderência do produto oferecido frente às necessidades da organização deveria ser alvo de especial atenção. Mas, o que nós observamos na realidade empresarial brasileira são tecnologias adquiridas e não utilizadas,subutilizadas ou utilizadas com restrições, fatos estes que indicam que os valores que orientaram a escolha da tecnologia nem sempre são os baseados na razão.

Minha experiência no mundo corporativo tem mostrado que a causa do problema não reside na competência dos profissionais responsáveis pela definição de padrões tecnológicos, pois estes, em sua grande maioria, conhecem muito bem suas tarefas e como conduzir um processo de definição tecnológica. Então, o que falta?
Integração! Esta é a resposta. Mas o que ou quem deve ser integrado? No cenário econômico atual, flexibilidade, velocidade e produtividade são fatores chaves para o sucesso de qualquer organização e a relevância, forma e natureza dos elementos que compõem e respondem pelo comportamento destes fatores devem orientar a adoção da tecnologia. Acontece que, na maioria das organizações, a relação de dependência existente entre a busca destes fatores e a tecnologia adotada nem sempre é evidente e, portanto, eles deixam de ser considerados na análise de aderência.


Estratégias são discutidas nas esferas da alta administração e nem sempre envolvem, na profundidade necessária, a área de TI que, em última instância, deverá dispor dos meios e dos recursos apropriados para tratar a informação e dar um suporte que garanta aos agentes de sustentação estratégica ambientes flexíveis, velozes e produtivos.


O processo de análise diz que para se conhecer o todo devemos dividi-lo em partes, estudar e entender as partes para então entendermos o todo. Entretanto, após a segregação dos elementos nós temos uma grande dificuldade para reunir as partes do todo que foi fragmentado e novamente estabelecer uma visão do conjunto.


Desta forma, na finalização do processo de análise e sem a visão do todo, valores que eu chamo de “passionais” acabam transformando a decisão em um caso de preferência subjetiva orientada pela tecnofilia. Agora, associe esta nossa dificuldade à capacidade que os fornecedores de tecnologia têm de serem excelentes criadores de desejos e, alguns deles, de criar grifes que atribuem aos seus produtos uma aura que transfere prestígio e destacam no mundo empresarial àqueles que os compram. Casos recentes demonstrados pelas três últimas ondas do mercado de software aplicativo – ERP, CRM e SUPPLY CHAIN – nos dão vários exemplos de altos investimentos que não trouxeram o retorno prometido por sua inadequada utilização.

Pois bem! Na próxima oportunidade que você tiver, reflita sobre os valores que embasarão sua decisão. Você ganhará pontos com isso e sua organização agradecerá.

Ivan Fonseca é professor, palestrante e consultor. – [email protected]