Quais as implicações de se recusar o crédito a alguém?

Como ajudar na realização de sonhos das pessoas, mas mantendo os riscos sob controle

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Carlos Toneto, gerente de risco de crédito da Pravaler
Carlos Toneto, gerente de risco de crédito da Pravaler

Autor: Carlos Toneto

O crédito é uma ferramenta poderosa de acesso. Graças a produtos de crédito, milhões de brasileiros podem estudar, comprar casa, abrir seus próprios negócios e, assim, mudar de vida. Nós, que trabalhamos com modelagem de crédito e risco, sabemos disso mais do que ninguém. Então por que a gente nega o acesso ao crédito para algumas pessoas?

Mais de 20% dos brasileiros tiveram crédito negado no final de 2019, segundo pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em parceria com o SPC (Serviço de Proteção ao Crédito). Isso significa que dois em cada dez brasileiros não têm direito a realizar seus sonhos?

Não. Definitivamente não é isso.

Negar crédito é uma decisão difícil de ser tomada e desagradável de ser comunicada, justamente porque sabemos o que está em jogo. E por mais estranho que pareça, essa negativa, que obviamente tem como objetivo proteger o capital da empresa, não deixa de ser também uma atitude centrada no cliente. Afinal, quem toma crédito assume uma responsabilidade no médio / longo prazo: pagar por ele.

Com base em processos cada vez mais humanizados e menos apoiados apenas em informações generalistas, como CEP e histórico financeiro do interessado, nós, do Pravaler, estamos conseguindo ampliar o acesso ao crédito estudantil no Brasil, ao mesmo tempo em que mantemos o nosso risco controlado. Mas ainda assim, vez ou outra, é necessário dar respostas negativas.

Isso acontece porque temos consciência de que, mais prejudicial do que negar o acesso ao crédito, é concedê-lo na hora errada.

Não conseguir pagar por uma dívida pode levar a uma redução ainda maior da liberdade financeira da pessoa, acarretando em perda de qualidade de vida e da capacidade de consumo, além de prejuízo social, que vai desde a cervejinha com os amigos que precisará ser cortada até o preconceito institucional por estar com o “nome sujo”.

É realmente uma bola de neve.

Quem recusa o crédito está, de certa forma, remediando falhas de educação financeira que são tão comuns entre os brasileiros. E é por isso – para que esse objetivo educacional se complete – que a instituição que nega o acesso ao crédito tem a obrigação de contar para o cliente o motivo da recusa, segundo o Código de Defesa do Consumidor.

Porque aí, em vez de a pessoa se sentir prejudicada, ela tem a oportunidade de entender o que aconteceu. De ver que não é uma questão fundada em preconceitos e estereótipos, mas, sim, algo situacional passível de ser revertido. De se conscientizar de que algumas coisas precisam – e podem – ser mudadas para que ela tome o tão desejado crédito sem se endividar e consiga, enfim, usufruir dos benefícios que essa ferramenta econômica traz.

E aí, ambas as partes serão beneficiadas: o cliente, que se organizou financeiramente e conseguiu o crédito para realizar um sonho, e a instituição, que conseguiu vender seu produto / serviço para mais uma pessoa.

Eu diria que recusar crédito, portanto, é uma questão de responsabilidade social. É uma atitude de quem não se rendeu ao jogo do “lucro pelo lucro”. É vender um serviço que obviamente vai trazer retorno financeiro à empresa e a sociedade – mas sem prejudicar o consumidor.

Carlos Toneto é gerente de risco de crédito da Pravaler.