Reputação bem construída, uso estratégico da IA e uma cultura organizacional madura tornam-se pré-requisitos para competir
Autor: Gabriel Oliveira
Nas conversas que tenho tido com líderes nos últimos meses, ficou claro que 2026 não será um ano de grandes rupturas repentinas. Será o ano em que as escolhas feitas agora começam, de fato, a cobrar seu preço ou a gerar retorno.
No contexto mais recente, muitas organizações apostaram em velocidade, experimentação constante e novas tecnologias como motores de crescimento, algumas ganharam tração no curto prazo, outras descobriram, da forma mais dura, que crescer rápido sem estrutura aumenta risco, custo e desgaste de marca. Quando a narrativa avança mais rápido do que a entrega, a percepção de risco sobe e o crescimento começa a travar.
É por isso que o critério mudou.
A aceleração deixou de ser sobre fazer mais e passou a ser sobre fazer melhor, com menos atrito e mais previsibilidade. Em mercados mais maduros, quem decide orçamento não compra apenas produto ou serviço. Compra redução de risco. E é nesse ponto que reputação deixa de ser narrativa e passa a ser ativo econômico.
Reputação bem construída encurta ciclos de venda, reduz esforço de convencimento e antecipa confiança antes mesmo da primeira conversa comercial, e marcas que tratam isso como algo abstrato continuam gastando mais para crescer. As que integram reputação ao modelo de negócio entram em vantagem, não por barulho, mas por consistência. Nesse contexto, governança, segurança e confiança digital também ganham protagonismo. Com o uso crescente de dados e sistemas inteligentes, o risco operacional e reputacional aumenta, e a segurança deixa de ser tema técnico para se tornar tema de liderança.
A inteligência artificial é o exemplo mais claro dessa virada estrutural, ela já não é promessa nem diferencial isolado. Está se consolidando como infraestrutura de decisão e vai muito além da automação ou de ganhos marginais de produtividade. A IA reduz incerteza, antecipa cenários, ajuda a priorizar investimentos e apoiar decisões estratégicas em tempo real. Empresas que ainda tratam essa ferramenta como acessória seguem presas à discussão sobre eficiência, já as que a integram ao coração do negócio passam a discutir qualidade de decisão e isso muda completamente as regras do jogo.
Os dados confirmam essa transição. De acordo com o relatório The State of AI in 2025, da McKinsey, a discussão já não é mais “se” as empresas vão adotar IA, mas como. Hoje, 23% das organizações já estão escalando agentes de IA capazes de executar processos inteiros, enquanto 39% ainda testam essas soluções. O dado mais revelador, porém, está no contraponto: menos de um terço segue boas práticas de governança para o uso responsável da tecnologia.
Na prática, isso mostra que a tecnologia avança mais rápido do que a capacidade das empresas de estruturar decisão, controle e responsabilidade. E é exatamente aí que mora o ponto crítico para 2026. A vantagem competitiva não virá apenas de adotar IA, mas de integrá-la a um sistema sólido de governança, cultura e reputação, capaz de sustentar a aceleração sem aumentar o risco do negócio.
Ainda assim, a tecnologia sozinha não acelera nada, quando mal integrada, ela apenas adiciona complexidade. Digitalizar processos antigos sem repensar o modelo operacional cria atrito em escala maior. O que diferencia quem cresce é a capacidade de revisitar fluxos, quebrar silos e conectar estratégia, operação e tecnologia em torno de menos fricção e mais valor percebido.
Esse movimento exige algo historicamente subestimado, a cultura organizacional. E é a liderança quem dá forma a isso na prática, ao definir prioridades, sustentar a visão e transformar valores em comportamento cotidiano. Uma pesquisa global da PwC, com mais de 3.200 lideranças, reforça que 72% dos executivos consideram a cultura decisiva para iniciativas de mudança bem-sucedidas. Ainda assim, enquanto 77% da alta liderança se identifica com o propósito da empresa, esse número cai para 54% entre os demais profissionais.
Quando a cultura não é vivida de forma consistente, a estratégia perde tração, por melhor que seja no PowerPoint. Por isso, a cultura deixou de ser pano de fundo e passou a ser vantagem competitiva real.
Outro desdobramento natural desse cenário é a consolidação de times híbridos e especialistas multidisciplinares. À medida que a IA absorve tarefas repetitivas e operacionais, as equipes se tornam mais enxutas e, principalmente, mais orientadas à estratégia. Ganham espaço os perfis T-shaped, profissionais com profundidade técnica em uma especialidade e visão ampla do ecossistema em que atuam. A operação passa a exigir menos execução mecânica e mais capacidade de articulação, menos “mão”, mais “cabeça” e decisões que conectam contexto, impacto e resultado.
Reputação (bem construída), uso estratégico da IA e uma cultura organizacional madura tornam-se pré-requisitos para competir. No fim, 2026 não vai premiar quem corre atrás de toda tendência. Vai premiar quem constrói um sistema integrado de tecnologia, cultura, reputação e decisão.
Com tudo isso colocado à mesa, a pergunta que fica é simples e incômoda: sua empresa está se preparando para crescer com critério ou apenas tentando não ficar para trás?
Gabriel de Oliveira é CEO da Motim.





















