Segundo a futurista americana Amy Webb, o valor passa a estar na forma como as tecnologias serão integradas, combinadas e aplicadas com responsabilidade
Autora: Andréa Paiva
A inteligência artificial foi um dos eixos centrais do SXSW 2026 e apareceu não apenas como tecnologia, mas como uma força que já começa a redefinir a forma como as empresas estruturam suas operações e, principalmente, constroem a experiência do cliente. Desde a abertura, ficou evidente que o evento vai além da apresentação de tendências e se posiciona como um espaço de troca e construção coletiva, algo que reflete diretamente o momento vivido pelas organizações, em que conectar dados, tecnologia e pessoas se torna essencial para gerar valor real.
Ao longo das discussões, consolidou-se a percepção de que estamos entrando em uma nova fase da inteligência artificial. O desafio agora passa a ser mais profundo e estrutural, impactando diretamente a forma como as empresas desenham jornadas, se relacionam com seus consumidores e organizam suas operações internas.
Como a IA está impactando comunidades e organizações?
Um dos pontos mais relevantes debatidos no evento foi a forma como a inteligência artificial ainda vem sendo utilizada de maneira limitada dentro das empresas. Em muitos casos, ela segue aplicada para otimizar tarefas já existentes, como atendimento, análise de dados e comunicação com o cliente, tornando processos mais rápidos e baratos, mas sem necessariamente transformar a experiência entregue.
Essa leitura apareceu de forma clara em uma das palestras mais aguardadas do SXSW, do futurista Ian Beacraft, ao discutir que grande parte das organizações ainda utiliza a IA para replicar o que já existe, apenas com mais velocidade. A provocação feita por ele reforça esse ponto ao indicar que o desafio não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é aplicada dentro dos modelos atuais de trabalho.
Essa lógica de aceleração, sem redesenho, cria um cenário em que a tecnologia melhora indicadores operacionais, mas não resolve fricções estruturais da jornada. Nesse contexto, a inteligência artificial passa a influenciar toda a cadeia de experiência, repensando produtos, serviços e interações que são concebidos desde a origem.
Quando a IA passa a mediar o consumo
Produtos e serviços passam a ser concebidos não apenas para humanos, mas também para agentes de inteligência artificial, que começam a atuar como novos intermediários da jornada de consumo. Essa deve ser a grande virada de chave, já que, na prática, significa considerar esses agentes como usuários.
À medida que consumidores passam a realizar pesquisas de compra por meio de plataformas de IA generativa, como o próprio ChatGPT, em vez das buscas tradicionais no Google, a forma como produtos são apresentados e organizados na web precisa evoluir para ser compreendida por esses sistemas.
Como consequência, há uma mudança direta no papel dos profissionais de tecnologia ao longo de toda a cadeia de consumo. Isso porque a decisão do público final passa a ser cada vez mais mediada por recomendações automatizadas, elevando o peso da qualidade dos dados, da estrutura da informação e da consistência digital das marcas, fatores que passam a determinar, inclusive, a visibilidade das ofertas nesses novos ambientes.
Para as empresas, isso exige uma revisão estratégica sobre como produtos, conteúdos e canais são estruturados, deixando de ser apenas uma questão de presença digital e passando a impactar diretamente a competitividade.
Dentro desse novo contexto, essa mudança reforça um ponto central discutido no evento: organizações que apenas adicionam soluções de IA tendem a conviver com métricas fragmentadas, retrabalho e pouca integração entre áreas. Em contrapartida, aquelas que avançam para um redesenho estrutural conseguem criar jornadas mais consistentes, com dados compartilhados, decisões mais ágeis e uma experiência mais coesa para o cliente.
O que a convergência tecnológica revela sobre o futuro das relações?
Outro aspecto relevante discutido no evento foi a convergência tecnológica. Esse movimento, que combina inteligência artificial, automação, dados e diferentes interfaces digitais, não apenas amplia as possibilidades de interação, como também sustenta essa nova dinâmica em que decisões, jornadas e experiências passam a ser mediadas por sistemas inteligentes. Ao mesmo tempo, essa evolução traz novos desafios para as empresas, especialmente na forma de integrar essas frentes de maneira consistente.
Essa visão foi aprofundada por Amy Webb, que destacou que o momento atual não é apenas de criação de novas tecnologias, mas de integração entre as que já existem. A abordagem apresentada por Amy reforça que o valor passa a estar na forma como essas soluções são combinadas e aplicadas com responsabilidade.
Essa discussão também dialoga com uma perspectiva trazida pelo cineasta Steven Spielberg durante o evento, ao afirmar que utiliza a inteligência artificial como ferramenta, mas nunca como substituta da criatividade, um ponto que ajuda a sintetizar o próprio eixo da revolução tecnológica em curso. Mais do que sobre automação ou ganho de eficiência, trata-se de uma reconfiguração em que a tecnologia amplia possibilidades, mas continua sendo guiada por decisões humanas.
Nesse cenário, são a sensibilidade, o repertório e a capacidade criativa que definem não apenas experiências memoráveis, mas também a forma como inovação e valor são, de fato, construídos.
Andréa Paiva é diretora de pós-graduação da Fiap.





















