Transformar a inovação em negócios exige mais do que planejar: é preciso definir prioridades, disponibilizar recursos, estabelecer responsabilidades e acompanhar resultados
Autora: Ana Paula Debiazi
Seis em cada dez empresas brasileiras inovaram nos últimos três anos, segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que ouviu empresários de mais de mil empresas para entender o uso de iniciativas de fomento à inovação. O dado reforça a presença do tema no ambiente empresarial e traz uma questão importante para o planejamento estratégico: como transformar a inovação em uma agenda concreta, conectada aos objetivos do negócio e capaz de gerar resultados? Esse é um período que convida as empresas a revisitar os números, avaliar o mercado e definir os próximos passos. É também uma oportunidade para discutir como o negócio pretende continuar relevante. Nesse processo, essa agenda precisa ocupar um espaço concreto nas decisões sobre crescimento, competitividade e alocação de recursos.
O principal desafio é transformar a intenção de inovar em um plano de ação concreto. Embora o tema esteja presente no planejamento estratégico, nem sempre conta com orçamento definido, responsáveis e critérios de acompanhamento. Ao longo do ano, as demandas operacionais acabam tomando o espaço que deveria ser destinado ao desenvolvimento de novas oportunidades para o negócio.
Para avançar, o primeiro passo é conectar a inovação aos desafios estratégicos da empresa. Quais problemas limitam o crescimento? O que compromete a experiência dos clientes? Onde estão as perdas de produtividade? Quais mudanças de comportamento podem afetar a demanda? Que oportunidades surgem das competências que a organização já possui? Essas perguntas ajudam a dar direção aos esforços. Uma empresa que precisa aumentar a retenção de clientes pode priorizar novas formas de atendimento e relacionamento. Outra, que enfrenta pressão sobre margens, pode buscar soluções para processos, produtos ou canais de distribuição. A escolha das iniciativas deve partir do resultado que se deseja alcançar.
Também é necessário equilibrar diferentes horizontes. O planejamento precisa contemplar melhorias no negócio atual, oportunidades em mercados próximos e a exploração de novas fontes de receita. A distribuição de recursos entre essas frentes depende da maturidade, da capacidade financeira e da ambição de cada organização. O essencial é tornar essa escolha explícita, evitando que toda a capacidade de investimento seja absorvida pelas necessidades imediatas.
Outro ponto é avaliar como cada oportunidade será desenvolvida. Há desafios que podem ser resolvidos pelas equipes internas. Outros podem avançar com startups, universidades, centros de pesquisa, fornecedores ou clientes. A inovação aberta amplia o acesso a conhecimentos e soluções, desde que exista clareza sobre o problema e capacidade interna para conduzir a parceria e incorporar os resultados. Para essa agenda funcionar, a governança precisa ser simples e objetiva. Cada iniciativa deve ter um responsável, uma hipótese a ser validada, recursos definidos e momentos de decisão. A liderança precisa acompanhar os avanços e dar condições para que as equipes participem. Isso inclui disponibilidade de tempo: atribuir projetos de inovação a profissionais com agendas já comprometidas exige rever prioridades e capacidade de entrega.
A forma de medir também merece atenção. Nas etapas iniciais, é importante acompanhar a validação do problema, o interesse dos clientes e a viabilidade da solução. Conforme a iniciativa amadurece, indicadores como receita, margem, produtividade, redução de custos e retenção passam a ganhar peso. Essa evolução permite avaliar cada projeto de acordo com seu estágio e tomar decisões com mais fundamento.
Nesse contexto, experimentar antes de escalar deve fazer parte da disciplina de gestão. Testes com escopo, prazo e critérios definidos permitem aprender com investimentos controlados. O planejamento pode prever momentos para ampliar, ajustar ou encerrar iniciativas, direcionando recursos conforme as evidências obtidas. Transformar a inovação em negócios exige mais do que planejar, é preciso definir prioridades, disponibilizar recursos, estabelecer responsabilidades e acompanhar resultados. Quando essas condições estão presentes, a inovação deixa de ser apenas uma intenção e passa a contribuir para a adaptação, a competitividade e o crescimento sustentável da empresa.
Ana Paula Debiazi é CEO da Leonora Ventures.




















