Alessandra Andrade, presidente da São Paulo Negócios

Varejo físico pode competir com e-commerce e grandes redes

A disputa, mais do que digital, é também territorial, porque o avanço do comércio eletrônico é crescente e irreversível

Autora: Alessandra Andrade 

Num ambiente comercial cada vez mais disruptivo, as lojas de rua precisam encontrar meios eficazes de concorrer com as grandes redes e o e-commerce Internacional. É o novo paradoxo do setor, pois a pessoa que passa na calçada pode escolher entre o estabelecimento físico local, a marca global instalada no shopping mais próximo ou uma plataforma digital. A decisão não depende mais da geografia, mas sim de atenção, conveniência e experiência. 

Os números ajudam a entender esse cenário. Segundo a SellersCommerce, plataforma norte-americana especializada em e-commerce, 2,77 bilhões de pessoas, ou 33% dos terráqueos, compram online. O mercado global de comércio eletrônico está estimado em US$ 6,8 trilhões em 2025, com projeção de alcançar US$ 7,95 trilhões até 2027. E não é só isso, pois somente as vendas por meio de redes sociais foram dimensionadas em US$ 1,17 trilhão no ano passado, conforme a E-commerce Germany News (EGN), portal de referência sobre comércio eletrônico. 

A concorrência é simultaneamente local e internacional. O público comprador é omnichannel. O ambiente urbano tornou-se palco de uma ferrenha disputa. O consumidor não interage apenas com o comércio local. Ele pesquisa no celular enquanto caminha. Compara preços dentro da própria loja. Descobre marcas no Instagram e finaliza a compra na calçada. O varejo deixou de ser um território delimitado por paredes. 

Nesse contexto, a pergunta inevitável é: como garantir que o comércio de rua continue competitivo? São fundamentais políticas públicas que lhe possibilitem competir contra gigantes globais. Isso é importante, considerando que esse varejo é um universo fértil de empreendedorismo e pequenas empresas, geradoras de empregos, renda e inclusão social. Em uma cidade como São Paulo, maior polo econômico do País, com cerca de dois milhões de empresas ativas e uma economia que responde por parcela relevante do PIB nacional, dar protagonismo às lojas das nossas calçadas é uma decisão estratégica. 

Nesse sentido, há sinais positivos. Políticas públicas municipais recentes têm sido amigáveis aos negócios. De 2021 a 2025, 869.004 empresas foram criadas na cidade (número não inclui MEIs), além da imigração de 89.840 para a capital paulista. Somente no ano passado, foram abertas 185.121 e outras 15.616 transferiram-se para a cidade. 

Esse movimento consistente reflete a redução de entraves burocráticos, a simplificação de processos e uma agenda contínua de legislação e políticas públicas voltadas à atração e à expansão de investimentos, construída de maneira coordenada entre diferentes áreas do poder público. Medidas como a redução do ISS para setores estratégicos, prevista nas Leis nº 17.719/21 e 17.875/22, a modernização das compras públicas com a Lei Federal nº 14.133/2021 e a regulamentação da Encomenda Tecnológica, pelo Decreto nº 64.062/2025, contribuem para um ambiente mais competitivo e previsível. 

Há, também, um processo urbano estruturante em curso, referente à revitalização do centro da cidade, tradicional polo do comércio de rua. A retomada dessa região histórica ocorre por meio de dois programas interligados, o PIU (Plano de Intervenção Urbana) e o Requalifica Centro.  

O primeiro é operacionalizado em dois grandes recortes: o Setor Centro Histórico e o Setor Centro Metropolitano, que abrange Brás, Belém, Pari, Bom Retiro e Santa Cecília. Propõe três eixos claros: adensar, misturar usos e enfrentar a carência habitacional. Prevê ampliação da oferta habitacional, retrofit de imóveis subutilizados, preservação do patrimônio histórico-cultural, estímulo a usos mistos, inclusive comerciais, e cooperação público-privada na requalificação territorial. 

O Requalifica Centro é voltado à adequação de construções existentes aos padrões atuais de segurança, salubridade e acessibilidade, ampliando a oferta de área apta ao adensamento por meio do retrofit. Para torná-lo economicamente viável, adotou-se um pacote abrangente de incentivos: isenções de IPTU por períodos prolongados e de ITBI, redução da alíquota de ISS para serviços de engenharia e arquitetura ligados às obras, remissão de débitos anteriores do imóvel, isenções de taxas municipais e retorno gradual à tributação integral após o período de benefício. Há, ainda, subvenções econômicas para cobrir parte relevante das despesas de obra. 

Essas iniciativas não são periféricas ao debate sobre e-commerce. Afinal, a disputa, mais do que digital, é também territorial, porque o avanço do comércio eletrônico é crescente e irreversível. Ele trouxe conveniência, ampliou o acesso e democratizou ofertas. Porém, a despeito de sua importância para o consumidor, é preciso manter cada vez mais forte e próspero o varejo de rua, no qual existe um ecossistema vivo de empreendedorismo, empregos e renda. 

Os paulistanos, como eu, sabem muito bem do que estou falando. A cidade pulsa nas vitrines, nas calçadas movimentadas e nas portas abertas. Se a concorrência agora é global, a resposta precisa ser local, inteligente, estruturada e corajosa.

Alessandra Andrade é presidente da São Paulo Negócios.

Deixe um comentário

Rolar para cima