O que aconteceu com o capital humano?

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Dieter Kelber

Dificilmente alguém deixou de ouvir ou ler que o Capital Humano é fator decisivo no sucesso das empresas. Também é vox populi a necessidade constante do aumento da produtividade para garantir a existência de lucros para novos investimentos. Assim, seria de se esperar que as organizações investissem maciçamente na implementação de novas tecnologias e nas pessoas, já que ambas ações são pré-requisitos indispensáveis para que se tenha processos de negócios otimizados e operando com melhoria contínua.

Não é difícil perceber que na parte da tecnologia as empresas esmeraram os investimentos. Hoje, elas têm sistemas de informação altamente complexos como ERP, BI, CRM etc. capazes de contribuir expressivamente para o aumento da competitividade e produtividade. Mas o que aconteceu com o desenvolvimento do Capital Humano? Ao invés de ser foco de investimento, as empresas optaram em exigir que as pessoas patrocinassem o auto-desenvolvimento, ocasionando assim uma grande assimetria entre o que as empresas precisam e o que os talentos buscam.

O indivíduo, ao usar os próprios recursos, optou em se focar num desenvolvimento voltado para um cenário mais amplo, fora do ambiente de trabalho. A própria instabilidade no trabalho justifica plenamente esse comportamento. As conseqüências estão cada vez mais visíveis para essa decisão completamente equivocada das empresas. Além de não ter tido significativas reduções de despesas, já que a rotatividade de pessoas na busca de competências prontas aumentou consideravelmente, a produtividade esperada com a implementação de novas tecnologias ficou muito aquém de qualquer expectativa, colocando inclusive em cheque se o ROI de cada investimento foi realmente atingido.

Um exemplo dessa conseqüência está na própria área de tecnologia. Pesquisas recentes mostram que a maior parte das empresas usa apenas de 35% a 45% do total de funcionalidades dos sistemas implementados. Isso ocorre porque é cada vez mais difícil escolher e aproveitar corretamente as oportunidades oferecidas pelas tecnologias existentes, pois a complexidade exige uma larga capacidade de entendimento. Em outras palavras, o melhor aproveitamento da tecnologia depende, mais do que nunca, do ser humano.

As pessoas, porém, continuam chegando ao mercado de trabalho com uma formação bastante deficiente e desalinhada com as necessidades das organizações. É necessário criar condições para que elas possam desenvolver as competências nas práticas empresariais correntes, em especial nas metodologias que são comprovadamente mais eficientes, como por exemplo o BPM (Business Process Management). É indispensável que os integrantes do Capital Humano, sobretudo a área de RH, tenham cada vez mais visão sistêmica, multiculturalidade, interdisciplinaridade e especialmente uma alta capacidade de relacionamento e integração. Colaboração é competência chave para o sucesso de qualquer organização.

Para que os indivíduos atinjam esse estágio, é imprescindível que as empresas invistam cada vez mais recursos e tempo no desenvolvimento, tanto com ações de treinamento contínuo como em mentoring e coaching. Os talentos, em todos os níveis da estrutura organizacional (do chão de fábrica até a presidência) precisam praticar para aprender, bem como precisam aprender a aprender, aprender a se desenvolver e aprender a ensinar. Quanto melhor estiverem preparados, mais adequadamente irão não só executar as suas tarefas, mas também formar um Capital Humano de valor nas empresas. Ao optarem em não investir maciçamente, as organizações simplesmente estarão limitando o crescimento deste capital, caminhando, assim, perigosamente para uma situação insustentável, um verdadeiro suicídio.

Dieter Kelber é diretor-executivo, consultor e pesquisador do Instituto Avançado de Desenvolvimento Intelectual (Insadi). ([email protected])