Vai um treinamentozinho aí?

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Um certo campeão de boxe, disse: não é no ringue que eu ganho a luta. A luta eu ganho antes, com meus treinos, minha dedicação e disposição. O ringue é somente o lugar da celebração de minha vitória.
Reunir funcionários numa sala e passar a apontar erros, criticá-los, ameaçá-los, diminui-los, ridicularizá-los, dando-lhes enfim uma “chacoalhada”, para muitos isto é um treinamentozinho, que não deve ser associado exclusivamente à sua duração e sim à sua metodologia e conteúdo.
Em algum momento de sua vida você já viu este filme e, como na maioria das vezes, logo após a bronca geral, tudo o que se verá serão tentativas isoladas de solução, até que todos se rendam, voltando ao que eram antes, pois as pessoas além de identificar precisam se convencer sobre o que é errado em sua postura e terem instrumentos para mudar.
Está aí a diferença entre treinar e adestrar. No adestramento você condiciona comportamentos e qualquer desvio no roteiro previsto. Seu funcionário tende a ajustar a realidade ao modelo idealizado; caso não consiga este ajuste, o seu desempenho será o caos e pobre do cliente, seja interno ou externo, pois não terá sua necessidade atendida.
Sendo simplista, entendo que treinar pessoas compreende polarizá-las para corrigir pontos falhos e principalmente preparando-as para uma postura crítica diante de sua atividade, capacitando-as a solucionarem novos problemas, ou no mínimo, identificarem o que não anda bem e buscarem, livre, aberta e criativamente, uma solução.
Nosso deficiente sistema de ensino formal faz com que haja total ênfase no conteúdo, através de um processo que o professor se sente mais confortável, cabendo aos alunos registrarem o que lhes é “introduzido goela abaixo”, gerando não o questionamento e sim a pura repetição daquilo que passivamente viram alguém apresentar e nas provas repetirem o que ouviram.
Isto acaba sendo levado para a vida profissional e principalmente para as salas de treinamento, onde invariavelmente os alunos desejam ir “aos finalmente”, “saber o mapa da mina”, a “dica infalível”, sem a necessidade de pensar para mudar. Este é o maior desafio para os educadores.
Eficientes métodos de ensino sugerem que o professor/instrutor não só domine o conteúdo, mas também saiba os seus fundamentos, sua origem, de tal sorte que transmita aos alunos que aquilo que está sendo apresentado é fruto de uma análise coerente e que, mesmo assim, pode ser modificado diante de um fato novo, novos experimentos, novas relações. Enfim, há toda uma base de sustentação e não algo que veio do nada, uma simples dica, o “pulo do gato”, “se colar, colou”.
E mais, o show não deve ser o datashow e multicoloridas imagens e textos para serem lidos pelo “instrutor” que fica de costas para os alunos, lendo o material projetado na tela!!! Aqui vale lembrar o teatrólogo Antunes Filho: “O show iguala tudo num nível rasteiro”.
O sucesso de um treinamento compreende três fases e na falta de uma delas, se transformará num treinamentozinho:
– Levantamento das necessidades. Anote e liste: a comparação entre o resultado esperado e o resultado obtido; as causas prováveis do desvio são de ordem pessoal ou conjuntural? Algo mudou que poderia ser a causa do problema? Quais procedimentos não estão sendo seguidos? Com base nesta análise já se terá uma visão se um treinamento ajudará na solução de seus problemas e quais os pontos a serem reforçados.
– O treinamento em si: o conteúdo atenderá suas análises e conclusões acima levantadas? A metodologia é a mais indicada para o nível de conhecimento e maturidade dos treinandos? Serão feitos exercícios que permitam aferir o entendimento do que se pretendia passar? Haverá tempo e clima para questionamentos e debates?
– Ações pós treinamento: quais medidas serão adotadas e claramente expostas aos treinandos pela supervisão/gerência sobre novos procedimentos, métodos de avaliação de desempenho/premiações; Quais serão as ações de sustentação do que foi passado em sala de aula?
Ou você é daqueles que dizem “esqueçam o que viram na sala de aula; a realidade aqui é diferente”! Neste caso, medite sobre a frase do lutador no início deste texto, senão você vai continuar perdendo a luta e pondo a culpa no treinamento, no instrutor, na guerra, no dólar, etc…
José Teofilo Neto – diretor da Comunicação Direta
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