É a confiança. Ou a falta de?

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Autor: Marcos Gouvêa de Souza
Os números oficiais divulgados pelo IBGE, com os dados do comportamento do varejo brasileiro em julho 2014, mostraram um crescimento negativo de 0,9% em relação ao mesmo mês do ano passado, o pior desempenho da série recente desse indicador. E as previsões para o comportamento para os demais meses do segundo semestre não devem ser muito melhores. Ainda que tenha havido no mês questões sazonais, em termos de dias, mais ou menos favoráveis às vendas, na razão de tudo está um quadro de queda significativa do nível de confiança da população que reprime sua propensão ao consumo, na esteira da forte retração também do setor empresarial que não enxerga no curto ou no médio prazo perspectivas significativas de mudanças estruturais no país.
O período de mais curto prazo, espremido entre o final da Copa do Mundo e as eleições presidenciais e sacudido pelo acaso do acidente aéreo que vitimou o candidato Eduardo Campos, colocou novos ingredientes num cenário que já era de elevadas incertezas e contribuiu ainda mais fortemente para elevar o nível de desconfiança e preocupação com o futuro próximo. Como resultado dessa crise de confiança o consumo de bens e serviços mais dependentes de relações de mais longo prazo, especialmente os duráveis, são os que mais são afetados, especialmente imóveis, veículos, eletrodomésticos, móveis e itens de maior valor de forma geral, especialmente os dependentes de crédito.
Para agravar um pouco mais o quadro, o emprego no setor industrial começa a dar mostras de oscilação fazendo com sejam geradas dúvidas sobre o comportamento futuro do nível de emprego geral do país após as eleições, quando ajustes necessariamente terão que ser feitos nos quadros públicos, usualmente, inchados na reta final de governos, porém realinhados no início de novos períodos. No setor privado, o emprego já tem sido ajustado por conta das perspectivas de um menor crescimento econômico, em especial em alguns setores, sendo que por enquanto tem se conseguido equilíbrio com ajustes inter-setoriais, com as áreas de serviços e comércio, absorvendo excedentes de outras. Na continuidade do processo isso poderá não acontecer. Do lado da renda existe um sentimento que o crescimento real ocorrido nos últimos anos gerou algumas distorções pontuais e setoriais e que muita atenção deverá ser agora dedicada a ajustes que possam contribuir para a recuperação competitiva dessas áreas, o que pode sugerir menor crescimento real à frente, como de fato já se percebe em alguns segmentos.
Como medida de cautela o sistema financeiro, que antecipava parte desse comportamento geral da economia, tratou de se resguardar e se tornou muito mais seletivo na análise e concessão de crédito preocupado com o nível de endividamento das famílias e com o a inadimplência que, apesar de não estar fora dos padrões habituais, poderia ensejar preocupações. Como resultado, só houve um agravamento do problema. E é com esse cenário que trabalhamos para os meses finais do ano, com uma conjugação preocupante de elementos que pode determinar um comportamento cauteloso de consumo e vendas mornas do varejo, com pouca possibilidade de reversão, especialmente enquanto perdurar o quadro de indefinição política e econômica. 
O país vai chegar ao Natal vencido e humilhado no campo na Copa do Mundo, ainda que surpreso com o que ocorreu extra campo no período, dividido entre vencedores e vencidos pelo período eleitoral, endividado no crediário e no imobiliário, ainda que razoavelmente adimplente, e com perspectivas de grandes ajustes no setor público no início do próximo ano o que, definitivamente, não cria exatamente o melhor clima para o melhor período de vendas do varejo. Provavelmente, vamos ter a repetição de um período que se repete, ciclicamente, de tempos em tempos de um Natal bem brasileiro, de muita festa com pouco dinheiro. 
Marcos Gouvêa de Souza é diretor geral da GS&MD – Gouvêa de Souza