A experiência passa a incluir expectativa de retorno, semelhante ao acúmulo de milhas, em que cada etapa contribui para algo maior
Autor: Adriano Santos
Existe uma tendência no mercado financeiro digital de medir crescimento pelo número de novas contas abertas, como se isso, por si só, garantisse sustentabilidade. Na prática, a lógica é menos direta. LTV mostra quanto cada cliente gera ao longo do tempo e depende muito mais da frequência de uso e da relevância da solução na rotina financeira do que da expansão rápida da base. Ele aumenta quando o serviço deixa de ser alternativa eventual e passa a fazer parte do dia a dia. É como aquele aplicativo que reúne pagamentos, transferências e organização de gastos no mesmo lugar. No momento em que isso acontece, a receita deixa de oscilar e ganha previsibilidade.
Plataformas que operam com ativos digitais e stablecoins já possuem naturalmente um nível alto de recorrência. Transferências internacionais, pagamentos online, custódia e conversões entre moedas geram interações constantes ao longo do mês. Cada uso corrobora com a presença da solução na vida financeira do cliente. Quando há incentivos associados a essas operações, o impacto se amplia. O objetivo não é estimular atividade pontual, mas criar vantagem acumulativa para quem mantém movimentação frequente. Permanecer ativo passa a ser uma decisão econômica clara.
Programas de pontos ajudam a organizar essa dinâmica ao vincular operações a benefícios progressivos. A experiência passa a incluir expectativa de retorno, semelhante ao acúmulo de milhas, em que cada etapa contribui para algo maior. Clientes tendem a concentrar suas transações onde percebem ganho contínuo. Em ambientes tokenizados, pagamentos, remessas e manutenção de saldo alimentam esse ciclo. A recompensa deixa de ser detalhe promocional e passa a influenciar escolhas concretas.
O mercado brasileiro de fidelização confirma essa mudança de comportamento. Em 2025, somente no terceiro trimestre, o setor registrou 13,6 milhões de transações e faturamento de R$ 6,59 bilhões, segundo a ABEMF, com crescimento superior a 18% na comparação anual. No mesmo período, foram acumulados 270,5 bilhões de pontos e milhas e resgatados 247,7 bilhões, enquanto a taxa de expiração caiu para 11,6%, o menor nível da série histórica. Os números mostram que benefícios influenciam decisões reais de consumo e gestão de recursos. Integradas ao fluxo financeiro, as recompensas aumentam a retenção sem depender apenas de descontos agressivos.
No cenário internacional, as stablecoins também ganharam protagonismo na economia digital. Em 2025, representaram mais de 60% do volume total de transações cripto globais, segundo o Global Crypto Report da Chainalysis, com movimentação anualizada superior a US$ 15 trilhões. Grande parte dessa atividade está ligada a liquidação internacional e pagamentos recorrentes. Esse padrão cria ambiente favorável para modelos que conectam hábito financeiro e permanência. Onde há volume constante, existe espaço para aprofundar relacionamento e ampliar valor por cliente.
Soluções que combinam liquidação rápida, baixo custo e alcance global criam condições para aumentar o valor gerado por usuário. Ao associar incentivos às transações, a plataforma estimula concentração de saldo e continuidade de uso. Clientes tendem a manter recursos onde percebem recompensas, assim como concentram gastos em um único cartão para obter vantagens superiores. O retorno vem da soma das interações ao longo do tempo, não de uma operação isolada.
Essa lógica também melhora a estabilidade financeira do negócio. Quanto maior o tempo de uso e a intensidade das interações, menor o peso relativo do custo inicial de aquisição. O crescimento passa a depender menos da entrada constante de novas contas e mais do aproveitamento da base ativa. Fluxo mais estável permite planejamento com maior segurança e menos pressão por volume imediato.
LTV não aumenta por acaso; ele cresce quando o poder de decisão encontra incentivo alinhado ao funcionamento do produto. Em ecossistemas digitais baseados em stablecoins e pagamentos globais, programas de pontos podem transformar uso frequente em receita sustentável. Crescer, nesse cenário, significa criar ambientes onde o cliente escolha permanecer e ampliar sua participação ao longo do tempo.
Adriano Santos é sócio da Tamer.





















