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O consumidor é culpado?

Autor: Michel Alcoforado
Os números não negam. A lista é grande. A coisa tá preta! Em seu último relatório sobre a situação ambiental no mundo, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) sentenciou: Cada vez mais, o homem detona o meio ambiente e a conta já está cara para o planeta. Mas, enfim, qual é o valor da fatura? Sem pensar muito, é possível citar alguns números:
– Na última década, 21% das espécies de mamíferos; 12% das aves, 28% dos répteis e 35% dos invertebrados passaram a correr risco de desaparecer do globo terrestre;
– Foram desmatados mais de 130 mil km² de florestas entre 2001 e 2010;
– Nas últimas três décadas foram consumidos 33% dos recursos naturais disponíveis;
– Os Estados Unidos, com cerca de 5% da população mundial, consomem 30% dos recursos mundiais;
– Cada um de nós produz cerca de 500 kg de resíduos por ano. 
E por aí vai… Mas afinal, de quem é a culpa? Certamente a maioria dos leitores já terá uma resposta pronta na ponta da língua: Terceira Lei de Newton – a toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade. Em outros termos, o imbróglio ambiental no qual estamos submetidos é resultado da invenção de um modelo de sociedade em que o consumo excessivo de produtos e serviços costura todas as relações sociais. E mais, também estamos certos de que o objetivo principal de qualquer atividade de consumo não está somente no gozo individual, mas ao contrário, é na busca torpe pelo status, pela diferenciação e exclusividade que colocamos o destino do planeta em risco. A culpa está no colo dos consumidores! 
O discurso ganha ainda mais força quando a ciência ajuda na argumentação. Não faz pouco tempo o famoso psiquiatra Flávio Gikovate deu uma entrevista afirmando que o consumismo das elites brasileiras é fruto de um desespero. Diante das angustias cotidianas e de uma vida vazia de sentidos, nos obrigamos a comprar tudo. Sem uma clara percepção do que é supérfluo ou necessário e em busca de uma incessante da satisfação dos desejos individuais colocamos a vida do coletivo (meio ambiente) em risco. Somos todos egoístas e consumistas.
Não é raro observar a presença do discurso negativo nos principais fóruns mundiais sobre o consumo. Sempre o relacionando como a grande causa de todos os problemas atuais, os especialistas – ambientalistas ou não – esquecem que só é possível consumir algo que foi produzido.  Esses são fenômenos siameses, como duas faces de uma folha em branco. São inseparáveis. 
Desse modo, não há como festejar quando a economia bate recordes de produção ou crescimento e, protestar quando o consumo das famílias aumenta. Precisamos avaliar os fenômenos com mesmo peso e medida. São apenas duas pontas do mesmo fenômeno social. Sem falar que é graças ao consumo desesperado de muitas famílias brasileiras que os ricos empresários têm condições financeiras de sentar no divã de Gikovate. Se não venderem o que produzem, a grana vai apertar e muitos não terão como consumir os caros conselhos do psiquiatra. 
Com isso, pergunto aos leitores: por que insistimos em penalizar os consumidores pela questão ambiental quando sabemos que eles apenas compram o que é produzido? Por colocamos sobre as costas dos indivíduos todo o peso de um trabalho que deveria estar sendo feito pelos grandes conglomerados industriais? Por que culpamos os cidadãos quando deveria ser o Estado brasileiro o verdadeiro fiscalizador e regulador de linhas produção que agridem o meio ambiente dia e noite? O problema está na nova televisão que comprei para o quarto do meu filho ou no padrão de matriz energética que cada vez mais privilegia as termoelétricas cuspindo dióxido de carbono na atmosfera todos os dias? São os consumistas os culpados?
É preciso recuperar o duplo sentido do sufixo grego ismo, de consumismo. Este pode significar tanto uma doença ou patologia – como acreditam os seguidores de Gikovate quando o assunto é o consumo – quanto trazer consigo a noção de um sistema de ideias, de ideologia. Defendo a segunda posição. Não tenho dúvida que vivemos um modelo de sociedade cujo ato de consumir significa muito mais do que uma simples relação de compra e venda, de débito ou crédito. Ao comprar criamos significados, acessamos novos universos, construímos nossa identidade e marcamos nossa diferença. E mais, produzimos novas formas de viver e ver o mundo. Encontramos um lugar no mundo. 
Apesar disso, concordo com os ambientalistas que nossa sociedade está criando um sério problema ambiental para si. Não há como continuar no mesmo ritmo. Falta Planeta. Mas será que a solução é incentivar a diminuição do consumo do Outro? Afinal, como construir um discurso legítimo e eficaz que convença milhares de brasileiros que só agora, depois de séculos, puderam comprar o primeiro carro que o legal é andar de bicicleta? Ou ainda, como convencer as elites acostumadas, desde sempre aos acessos de uma vida confortável, que precisarão diminuir seus padrões de consumo?
Os culpados são os Outros.
Michel Alcoforado é antropólogo e sócio fundador da Consumoteca.

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