O novo paradoxo da tecnologia

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Luis Alberto Piemonte

As limitações dos sistemas tecnológicos de informação em relação às reais necessidades das empresas foram a maior premissa da área de tecnologia da informação (TI) durante décadas. Quem já for um pouquinho mais velho vai se lembrar da frustração em solicitar relatórios, informes ou demonstrações financeiras (fundamentais para a administração ou acompanhamento dos negócios) customizados, pois eram praticamente impossíveis de serem feitos pelos sistemas de então.

Era a época em que TI se chamava CPD e computador era uma coisa do tamanho de um armário que ficava em uma sala isolada, com temperatura controlada, em que apenas alguns privilegiados podiam entrar. Somente eles eram capazes de interpretar o que os computadores “diziam” e, assim como oráculos modernos (talvez daí tenha surgido a inspiração de uma importante empresa da área) fornecer os valiosos relatórios, mesmo que incompletos ou ainda brutos.

Aos poucos foi acontecendo uma mudança, que todos acompanhamos com enorme entusiasmo: o desenvolvimento tecnológico, com foco na tecnologia de informação. Os softwares e, posteriormente, os sistemas foram ficando cada vez mais e mais inteligentes; tanto que inclusive começaram a “conversar” entre si e integrar-se. A demanda por novas funcionalidades, cada vez mais complexas, fez com que o desenvolvimento se acelerasse, situação que subsiste até os dias de hoje.

De repente, percebemos que a situação mudou e ficamos surpresos ao analisar a nova realidade. Hoje, sistemas de informação altamente complexos como ERP (Enteprise Resource Planning), BI (Business Inteligence), CRM (Customer Relationship Manager) etc. são capazes de fornecer não apenas os dados e informações do modo que queremos como também geram relatórios que nem sequer imaginamos. Chegamos, então, a uma inversão de premissas. Se no passado o problema eram as limitações, atualmente é o não domínio do excesso de funcionalidades dos sistemas que dificulta o nosso trabalho.

Pesquisas recentes mostram, por exemplo, que a maior parte das empresas usa apenas de 35% a 45% do total de funcionalidades dos seus sistemas de ERP. Por que isso acontece? A resposta é muito simples: a oferta de informatização em quase todos os setores ultrapassa nossa capacidade de aproveitamento. Esta é a essência da mudança: a tecnologia da informação se coloca agora na frente das necessidades corporativas, não mais temos a reclamar por funcionalidades que precisamos. Ao contrário, ficou muito difícil escolher qual a melhor tecnologia para cada necessidade.

Se antes debochávamos da precariedade da tecnologia, hoje temos de nos esforçar muito para utilizá-la corretamente. Podemos concluir que na maioria das situações ficamos para trás e que nos é difícil escolher e aproveitar corretamente as oportunidades oferecidas, porque a complexidade ultrapassa nossa capacidade de entendimento. Em outras palavras, que o melhor aproveitamento da tecnologia depende, mais do que nunca, do ser humano. Esta é a conseqüência da mudança, e aqueles que a compreenderem mais rapidamente, buscando formas de harmonizar o potencial intelectual de seus colaboradores com a tecnologia, sairão na frente.

Um exemplo nesse sentido é o Business Process Management Systems (BPMS). Nele, os usuários são responsáveis por comandar conjuntos de sistemas diferentes sem operá-los diretamente. Nessa nova fase da TI, é possível ao usuário utilizar uma linguagem simples para acionar sistemas de complexos níveis tecnológicos que os transformarão em processos de gestão.

Com as tecnologias e metodologias disponíveis é possível alcançar graus de produtividade antes inimagináveis. Essa tendência permanece claramente visível nos dias de hoje, porém com um ingrediente que chama atenção: a necessidade de se voltar a investir no desenvolvimento das pessoas com o objetivo de uma otimização no uso do potencial das funcionalidades das ferramentas e dos sistemas existentes. Esse binômio marcará os próximos anos.

Luis Alberto Piemonte é presidente e consultor do Instituto Avançado de Desenvolvimento Intelectual (Insadi) e da Business Processes School. (l[email protected])

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