A inteligência artificial, mesmo quando possui memória e contexto, depende diretamente da qualidade das informações que recebe
Autor: Thiago Otto
Se você, como líder, está frustrado com a inteligência artificial (IA), talvez esse seja justamente o sinal de que precisa se aprofundar mais nela. Existe um desalinhamento importante na liderança brasileira, e ele não está sendo observado pelo ângulo correto.
É comum olhar para os números mais divulgados, pelos quais a maior parte da população mundial ainda não usa IA, uma parcela pequena já testou e uma fração mínima paga por ela. Mas o dado que realmente importa é outro: pouquíssimas pessoas utilizam a tecnologia em um nível capaz de extrair o que ela, de fato, pode entregar, seja orquestrando agentes, automatizando processos críticos ou multiplicando a produtividade de forma relevante.
O problema, portanto, não é tecnológico. É de mentalidade. Não está em desvantagem a empresa que ainda não contratou uma solução robusta, mas o líder que continua tratando a IA como um simples buscador mais eficiente.
A frustração com a tecnologia, na maioria das vezes, revela um estágio inicial de maturidade. A inteligência artificial, mesmo quando possui memória e contexto, depende diretamente da qualidade das informações que recebe. A menos que seja claramente comunicado, ela não conhece as metas do seu negócio, as dinâmicas internas ou as nuances das decisões estratégicas.
Vale um paralelo com uma prática comum na liderança, que é o processo de contratação. Ao abrir uma vaga estratégica, há um cuidado minucioso na construção da descrição, na escolha das palavras e na eliminação de ambiguidades, justamente para evitar desalinhamentos. A questão que fica é por que esse mesmo rigor não é aplicado na interação com a IA.
Enquanto essa discussão acontece, o mercado já começa a se reorganizar. Há uma tendência de redução no custo de softwares e, paralelamente, mudanças na estrutura do mercado de trabalho. Profissionais em início de carreira enfrentam um cenário mais restritivo, empresas revisam seus quadros e o modelo tradicional de pirâmide organizacional passa por transformação. A liderança, nesse contexto, deixa de ser um estágio futuro e passa a ser uma competência exigida desde o início da trajetória.
Surge uma tensão silenciosa dentro das equipes. Para muitos profissionais, a IA representa ao mesmo tempo uma oportunidade de crescimento e um risco concreto de substituição. Essa dualidade gera dúvidas difíceis de resolver. Avançar pode significar contribuir para a própria demissão; resistir pode resultar em perda de relevância. Sem uma direção clara, o efeito tende a ser um ambiente marcado por insegurança, onde a curiosidade é contida pela ansiedade e o desempenho começa a cair de forma pouco visível.
Liderar em meio a tudo isso exige posicionamento. É necessário definir onde a IA será usada para potencializar pessoas e onde será aplicada para substituir funções. Também é importante deixar claro que resistir à adoção não garante segurança, assim como adotar a tecnologia sem critério não é, por si só, um caminho sustentável.
A transformação em curso não está na ferramenta, mas no modo como as pessoas e, principalmente, os líderes respondem a ela. A inteligência artificial amplia possibilidades ao mesmo tempo em que traz incertezas. E a forma como esse equilíbrio será alcançado depende diretamente da capacidade de adaptação de quem lidera, especialmente daqueles que ainda não perceberam que as regras do jogo mudaram.
Thiago Otto é CEO & Founder da Otto-Otto AI Consulting e membro do Conselho de IA da Abiacom.





















