Durante o ClienteSA News, especialistas discutem as mudanças aceleradas no mundo do trabalho
Em um mundo em que a inteligência artificial democratiza ainda mais o acesso à informação em tempo real, o diferencial competitivo não está mais na quantidade de conhecimento que o profissional possui, mas na atitude e na capacidade de gerar impacto com esse conhecimento. Esse é o ponto de convergência de um debate crescente sobre o futuro do trabalho: se o conhecimento se tornou commodity, o que resta ao profissional é exercer autoria e orquestrar pessoas e tecnologias com senso crítico. Modelos fracionados de atuação, marcas pessoais bem posicionadas e uma mentalidade empreendedora aplicada à própria carreira deixam de ser tendência para se tornarem condição de relevância. Essas e muitas outras reflexões fizeram parte da 61ª edição do ClienteSA News, realizada ontem (27), e que reuniu Júlio Amorim, fundador e CEO da Great Group, e os cohosts Vilnor Grube, CEO da ClienteSA, Rodrigo Tavares, head de experiência do cliente na Eteg, e Wellington Paes, CEO do Conexão Customer.
Abrindo o bate-papo já com os primeiros insights sobre o futuro do trabalho, Júlio contou que, recentemente, dentro de um curso de MBA feito na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, sobre “A Gestão Moderna das Empresas”, cerca de 80% de todo o currículo era ligado ao tema de ‘pessoas’, passando por comportamento, atitude e novas metodologias. Para o executivo, as oportunidades não são mais dadas, precisam ser conquistadas por meio de ações concretas. Ele exemplificou que, em cinco minutos, é possível consultar as maiores referências sobre qualquer assunto por meio de IA, chegando a uma reunião com conhecimento equivalente ao de especialistas. “O diferencial, portanto, não é mais o conhecimento em si, mas como você se comporta e se posiciona diante desse conhecimento acessível a todos.”
Por sua vez, Wellington reforçou que a internet democratizou o acesso ao conhecimento há trinta anos, e agora a IA acelera ainda mais esse processo. “A questão central passa a ser o protagonismo autoral: o que você vai fazer com esse conhecimento que está disponível para todos? Qual impacto somos capazes de gerar com nossas competências? Essa mudança de paradigma exige que profissionais repensem completamente suas carreiras e como agregam valor.”
Já Rodrigo Tavares trouxe o conceito de “open talent” como a grande tendência. “Assim como existe open banking, o talento também precisa estar disponível para o mercado de múltiplas formas.” Exemplificou com sua própria atuação: é head de experiência na Eteg, advisor na INdigital e conselheiro consultivo de uma associação de mentores. “Essa fragmentação de tempo e competências em diferentes organizações não reduz o impacto, pelo contrário, potencializa. Não é necessário se contratar mais um CTO, CMO, um full-time mais caro. Pode-se ter um recurso sênior como executivo super experimentado, contratar 30% do tempo dele e já resolver o que precisa ser feito.”
A questão cultural brasileira foi levantada como um obstáculo significativo. Wellington apontou que existe uma mentalidade enraizada de que quanto mais você trabalha, mais ganha e mais liberdade tem. Essa cultura do CLT cria resistência ao modelo fracionado e ao empreendedorismo. “Profissionais sêniores estão topando trabalhar de forma fracionada, mas quando se desce na pirâmide, muitos aceitam apenas como quebra-galho, esperando a primeira oportunidade de emprego tradicional. Essa mentalidade limita a adoção de modelos mais eficientes e flexíveis que já são realidade em mercados mais avançados, como nos Estados Unidos, onde 35% da força de trabalho já trabalha em modelo fracionado.”
Júlio trouxe uma perspectiva provocadora sobre a questão de empreendedorismo versus emprego. Ele questionou por que empresas não conseguem contratar bons profissionais em modelo fracionado quando a consultoria tradicional já faz isso há anos. “Profissionais experientes que já resolveram suas vidas estão disponíveis para emprestar parte do seu tempo e conhecimento por um custo muito menor do que contratar alguém 100%. Essa prática, comum em consultoria desde 2008, deveria ser naturalizada em estruturas organizacionais tradicionais, mas encontra resistência cultural.”
A questão da IA e automação também foi central na discussão. Rodrigo registrou que a execução operacional está ficando com a inteligência artificial, sobrando para o ser humano liderar processos e transformações, orquestrar times multidisciplinares junto com a tecnologia. “Não é mais sobre ter líderes para garantir execução, mas sobre ter pessoas que cuidam de pessoas para garantir que a execução aconteça. Essa mudança fundamental reposiciona o papel do líder e do profissional no futuro. A sabedoria, senso crítico e pensamento analítico continuam sendo exclusivamente humanos, enquanto tarefas operacionais são progressivamente automatizadas.”
Houve consenso entre os participantes sobre o fato do futuro do trabalho ser, fundamentalmente, sobre empreendedorismo e autoria. Não se trata apenas de criar empresas, mas de ser empreendedor da própria carreira. Cada profissional precisa entender qual é sua marca pessoal, seu propósito, seu impacto. O exemplo dos Beatles foi trazido à tona. A obra deles juntos foi muito maior que a contribuição isolada de cada um, mas cada um tinha seu talento específico. Assim será o futuro: especialistas em seus nichos, mas disponíveis para colaborar em múltiplos projetos simultaneamente, gerando impacto profundo onde atuam.
A questão geracional foi abordada com nuance. Júlio alertou contra estigmatizar gerações, afirmando que o contexto genético ajuda a explicar apenas 30% da condição de uma pessoa, enquanto 70% é comportamento e escolhas. “Gerações Y e Z cresceram liderando em casa, mediando assuntos com tecnologia e profundidade, enquanto gerações anteriores foram educadas a ‘abaixar as orelhas’. Isso não significa que gerações mais jovens sejam automaticamente melhores líderes, mas que têm naturalmente mais facilidade com certos aspectos da liderança moderna. O importante é reconhecer que cada pessoa, independente de idade, pode se reinventar.”
Para fechar, Rodrigo trouxe uma provocação final: “E depois de hoje?”. Para o executivo, o mundo está mudando, o trabalho vai mudar, as expectativas das pessoas vão mudar e a pergunta que fica é se os profissionais vão adequar à nova realidade ou vão ficar para trás. Na sua visão, essa é a verdadeira provocação do futuro do trabalho. “O futuro não é para o mais forte, mas para quem se adapta. E a mediocridade nunca mais poderá ter espaço”, completou Julio. O vídeo, na íntegra, está disponível no YouTube, no canal ClienteSA Play, compondo um acervo em cultura cliente que já passa de 4,1 mil vídeos.




















