Quando a receita comercial passa a bilheteria, fica claro que o futebol já consegue lucrar não só com a emoção em si, mas com a imagem dela
Autor: Raphael Ozawa
Nos EUA, as arenas da NFL e NBA, as ligas de futebol americano e basquete, respectivamente, são construídas como verdadeiros parques temáticos. Têm ativações de marcas, gastronomia, tecnologia por todo lado e programação produzida para ocupar mais que o tempo da partida. No Brasil, os estádios começam a se inspirar nesse modelo, porque entenderam que o torcedor de hoje não compra só um ingresso. Ele compra a experiência.
O esporte continua sendo o centro de tudo. Sem a paixão pelo time e sem a imprevisibilidade do jogo, nenhuma dessas experiências faria sentido. Mas algumas das principais ligas esportivas do mundo entenderam que é possível criar valor em torno dessa paixão durante muito mais tempo.
Nenhum espetáculo é tão encantador, tão cheio de novidades caras e apetrechos de última geração, quanto a NFL. Veja um exemplo: em 2025, no Super Bowl LIX, a disputa entre Kansas City Chiefs e o Philadelphia Eagles foi o programa de TV mais assistido da história dos Estados Unidos: 126 milhões de espectadores. O fato representa uma alta de 10% sobre 2024 e de 7% sobre 2023; ou seja, um crescimento sustentado, não um pico isolado. Os intervalos comerciais do Super Bowl 2025 chegaram a custar aproximadamente US$8 milhões por 30 segundos, um valor recorde histórico.
Mais do que uma partida, o Super Bowl se transformou em um produto cultural que envolve música, publicidade, gastronomia, turismo, conteúdo e consumo. Mas esse movimento não está restrito aos esportes americanos.
A Deloitte Football Money League de 2026, que analisou a temporada 2024/25 dos 20 clubes de futebol europeu com maior receita do mundo, mostra que pela primeira vez na história do levantamento, a receita comercial ultrapassou os €5 bilhões, passando a ser a maior fatia isolada do faturamento total, à frente tanto da bilheteria/matchday (€2,4 bi) quanto dos direitos de transmissão (€4,7 bi).
Quando a receita comercial passa a bilheteria, fica claro que o futebol já consegue lucrar não só com a emoção em si, mas com a imagem dela. É o show no intervalo, a pausa para hidratação da Copa do Mundo de 2026, o produto licenciado que circula sem depender do momento do gol. Quem compra a camisa sem nunca ter ido ao estádio paga pela mesma paixão, só que embalada e vendida de volta como produto.
É aqui que está uma oportunidade para o futebol brasileiro. Nossa relação com o esporte é diferente da americana. O futebol no Brasil envolve pertencimento, memória familiar, bairro, rivalidade, cânticos e uma relação emocional construída muitas vezes desde a infância. Seria um erro tentar substituir isso por um modelo importado de entretenimento.
O aprendizado está em outra coisa: como gerar valor antes e depois dos 90 minutos sem eliminar aquilo que torna o nosso futebol único? O caminho não é copiar os Estados Unidos. É transformar o dia de jogo em um produto de entretenimento completo, com boa comida, atrações antes e depois da partida, conteúdo para o torcedor viver o dia todo e tecnologia que facilite a entrada e a compra.
Durante muito tempo, o ingresso foi tratado essencialmente como uma autorização de entrada. Hoje ele pode ser também o início de uma relação. Os dados que nascem ali como quem vai ao estádio, o que consome e como interage, ajudam clubes e ligas a conhecer melhor quem os acompanha e a oferecer algo cada vez mais sob medida. O torcedor deixa de ser só espectador e passa a ser também consumidor de entretenimento.
Raphael Ozawa é CEO da FutebolCard.




















