Renan Salinas, CEO & Founder da Yank Solutions

Os motivos pelos quais maioria dos projetos de automação morre na prova de conceito

É comum encontrar iniciativas que começam pela ferramenta, quando deveriam começar pelo processo

Autor: Renan Salinas

Durante anos, a conversa sobre automação esteve concentrada em uma única pergunta: vale a pena automatizar? Hoje, essa dúvida praticamente desapareceu. O mercado já entende que sim. A questão que ocupa a mesa dos executivos é outra: por que tantos projetos nunca saem da prova de conceito?

É comum encontrar empresas que investiram em uma POC (Proof of Concept), comprovaram ganhos iniciais e, ainda assim, nunca conseguiram transformar aquele piloto em uma operação de escala. O resultado é um cemitério silencioso de iniciativas que consumiram orçamento, mobilizaram equipes e geraram expectativa, mas jamais entregaram o retorno prometido. O custo desse fracasso é muito maior do que parece.

O problema não é a tecnologia

A automação amadureceu. Plataformas de RPA, inteligência artificial, mineração de processos e agentes inteligentes estão mais acessíveis do que nunca. Ainda assim, escalar continua sendo um desafio.

A própria McKinsey observa que, embora muitas empresas obtenham bons resultados em pilotos, poucas conseguem capturar todo o potencial da automação em larga escala. Em diversos programas, o valor entregue fica muito abaixo do previsto justamente porque a complexidade do ambiente produtivo é subestimada.

Outro levantamento da McKinsey mostra que apenas 61% das organizações afirmam ter atingido suas metas de automação, mesmo com a adoção crescendo em praticamente todos os setores. Em outras palavras: iniciar um projeto tornou-se relativamente fácil. O difícil continua sendo transformá-lo em resultado recorrente para o negócio.

O verdadeiro custo de abandonar um projeto

Quando uma empresa interrompe uma automação na fase piloto, normalmente contabiliza apenas o investimento financeiro perdido. Mas o prejuízo é muito maior.

Existe o custo das horas das equipes envolvidas, da expectativa criada nas áreas de negócio, da perda de confiança dos patrocinadores internos e, principalmente, do custo de oportunidade.

Enquanto um projeto permanece parado, processos continuam sendo executados manualmente, erros operacionais continuam acontecendo, retrabalhos permanecem consumindo recursos e clientes seguem enfrentando jornadas lentas e burocráticas. Em muitos casos, a empresa não perde apenas dinheiro. Ela perde velocidade competitiva.

Por que a maioria trava?

Nossa experiência mostra que o problema raramente está no robô. Ele costuma estar no projeto. É comum encontrar iniciativas que começam pela ferramenta, quando deveriam começar pelo processo.

Outras falham porque tentam automatizar fluxos cheios de exceções, regras não documentadas e baixa padronização. Há ainda empresas que desenvolvem pilotos utilizando ambientes controlados e bases de dados simplificadas, descobrindo somente na implantação que a realidade operacional é muito mais complexa.

A Deloitte identifica exatamente esse cenário: entre as principais barreiras para escalar automações estão a fragmentação dos processos, dificuldades de integração, baixa maturidade tecnológica, falta de competências e resistência à mudança. Ou seja, tecnologia não resolve problemas de gestão. Ela apenas acelera processos, bons ou ruins.

A síndrome da prova de conceito eterna

Outro erro recorrente é tratar a POC como um objetivo. Ela não é. Uma prova de conceito existe para responder rapidamente se determinada solução é viável. Depois disso, o foco precisa migrar imediatamente para governança, arquitetura, sustentação, indicadores, integração e escalabilidade.

Quando essa transição não acontece, nasce aquilo que muitas empresas vivem hoje: projetos que permanecem meses, ou anos, presos em uma espécie de limbo tecnológico. Eles nunca são encerrados oficialmente, mas também nunca entram em produção.

Escalar exige uma lógica diferente

Levar uma automação para produção não significa apenas criar mais robôs. Significa desenhar processos pensando em crescimento. Isso envolve padronização, documentação, monitoramento contínuo, integração entre áreas de negócio e TI, indicadores claros e uma estratégia capaz de priorizar entregas com maior impacto operacional.

Segundo a McKinsey, empresas que tratam automação como prioridade estratégica, envolvem TI desde o início e compreendem o custo total de propriedade dos projetos apresentam taxas de sucesso significativamente superiores.

O verdadeiro diferencial está no “arranco”

Existe uma diferença enorme entre construir um piloto funcional e colocar uma operação inteira para funcionar de forma sustentável. É justamente nesse momento que muitos projetos perdem força.

Escalar exige acelerar sem perder estabilidade, conectar tecnologia com operação e transformar uma boa ideia em resultado mensurável. Na prática, esse é o verdadeiro “arranco” que separa empresas que apenas experimentam automação daquelas que realmente transformam sua produtividade. Porque, no fim das contas, o maior desperdício não é investir em automação.

É investir, provar que funciona e nunca colher os benefícios que ela poderia entregar

Renan Salinas é CEO da Yank Solutions.

Deixe um comentário

Rolar para cima