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Ricardo Maravalhas, fundador e CEO da DPOnet

A experiência do usuário não pode custar a privacidade

É preciso entender que o novo consumidor digital não avalia empresas apenas pelo que elas entregam, mas também pelo que elas fazem com os dados coletados

Autor: Ricardo Maravalhas

Durante anos, o mercado digital perseguiu um objetivo que podemos dizer que era quase obsessivo: reduzir atritos, ou seja: menos cliques, menos etapas, menos formulários e menos fricção. A chamada “experiência do usuário” virou um mantra e, de fato, transformou produtos digitais em plataformas mais intuitivas, acessíveis e eficientes.

Mas existe um problema que muitas empresas preferem ignorar e, em nome da “melhor experiência”, a privacidade do usuário virou moeda de troca. O que não se pode negar é que a jornada digital moderna foi construída sobre uma contradição perigosa: oferecer conveniência máxima enquanto coleta dados em escala proporcional. E, em um mundo onde aplicações são o coração de praticamente todos os negócios, essa equação não é mais sustentável.

É por isso que atualmente estamos vivendo uma falsa escolha entre conveniência e privacidade. Isso porque muitas empresas ainda tratam a privacidade como se fosse um obstáculo para a experiência. Como se proteger dados significasse, inevitavelmente, piorar a usabilidade, e esse pensamento cria uma falsa dicotomia: ou o usuário tem uma experiência fluida, ou tem seus dados protegidos.

Só que essa lógica já não faz sentido, pois a privacidade não é um luxo, ela é parte da experiência. Quando um aplicativo exige permissões exageradas, coleta dados que não é precisa ou força consentimentos genéricos para funcionar, ele não está melhorando a jornada, ele está criando uma relação de desconfiança silenciosa.

E, como bem sabemos, a confiança no ambiente digital é um ativo tão valioso quanto qualquer interface bem desenhada.

Aqui quero destacar que muitas vezes o problema começa onde ninguém vê: no design da aplicação. Quando paramos para analisar os problemas já enfrentados por algumas companhias, é notório que grande parte das violações de privacidade não começa com um ataque hacker cinematográfico. Começa com decisões internas, aparentemente inofensivas, tomadas durante o desenvolvimento do produto.

Exemplos comuns incluem:

  • aplicativos que coletam localização mesmo sem necessidade real;
  • formulários que pedem mais dados do que o serviço exige;
  • integrações com ferramentas de analytics que capturam informações sensíveis;
  • SDKs de terceiros embutidos no app sem auditoria profunda;
  • logs e históricos armazenados por tempo indeterminado.

O risco não está apenas em “ter dados demais”. O risco está em como esses dados são armazenados, processados, compartilhados e protegidos dentro do ecossistema digital. E quanto mais fluida é a experiência, mais invisível se torna a coleta. O usuário não percebe. Mas a aplicação sabe.

Portanto, empresas realmente empenhadas em entregar o melhor para seus usuários já entenderam que privacidade não é apenas compliance: é reputação. E a LGPD deixou claro que privacidade também não é mais opcional. O que acontece, infelizmente, é que muitas companhias ainda operam como se privacidade fosse um checklist jurídico: colocar um banner de cookies, publicar um termo de uso e criar um canal de atendimento para solicitações.

É preciso entender que o novo consumidor digital não avalia empresas apenas pelo que elas entregam, mas também pelo que elas fazem com os dados coletados. E quando ocorre um incidente, o impacto não é só regulatório, é emocional e reputacional, porque uma falha de privacidade não é interpretada como um erro técnico. Ela é interpretada como uma “espécie de traição”.

Por fim, destaco aqui, caro leitor, que o usuário quer simplicidade, não vigilância. A grande ironia do mercado digital é que o usuário realmente quer uma boa experiência, ou seja, login rápido, atendimento eficiente, recomendações úteis, navegação inteligente. Mas ele não quer ser monitorado como se estivesse em um laboratório.

Existe uma linha tênue entre personalização e invasão. E a maioria das aplicações cruza essa linha sem nem perceber. O resultado é um cenário em que os consumidores passam a aceitar o monitoramento como “normal”, mas não necessariamente como “correto”. Eles não reclamam, eles apenas abandonam a marca.

Portanto, não basta ser rápido, bonito e funcionar. A experiência do usuário moderna precisa incluir transparência e controle, e isso significa permitir que o usuário saiba:

  • quais dados estão sendo coletados;
  • para que serão usados;
  • por quanto tempo serão armazenados;
  • com quem serão compartilhados;
  • como ele pode revogar permissões e consentimentos.

Quanto mais simples for esse controle, melhor será a experiência. Afinal, a privacidade não deveria ser um labirinto escondido no rodapé de um site.

Ricardo Maravalhas é fundador e CEO da DPOnet.

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