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Refugiados conseguem emprego formal no Brasil em operações multilíngues

Antônio Guilherme Noronha, presidente da ABT

Segundo a ABT – Associação Brasileira de Telesserviços, setor emprega mais de 2 mil pessoas em situação de refúgio existentes hoje no país

O Brasil tem hoje mais de 60 mil pessoas reconhecidas como refugiadas, das mais diversas nacionalidades, segundo a Acnur – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Com o acirramento da guerra em Israel, a expectativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública é de que os pedidos de acolhimento aumentem consideravelmente. Uma das maiores dificuldades para quem busca se estabelecer no país, no entanto, tem sido conseguir trabalho, com a barreira do idioma aparecendo como grande obstáculo. Dois em cada três estrangeiros sofrem com o desemprego, segundo a ONG “Estou Refugiado”. Diante deste cenário desafiador, o crescimento de operações bilíngues e trilíngues em empresas de telesserviços voltadas a mercados externos tem feito do setor um dos principais instrumentos de ingresso dessas pessoas no mundo do trabalho formal.

Segundo a Associação Brasileira de Telesserviços (ABT), o setor emprega mais de 2 mil pessoas em situação de refúgio existentes hoje no país, com potencial de aumento deste número. “A atividade, que emprega mais de 1,4 milhão de trabalhadores formais, concentra principalmente jovens em seu primeiro emprego, mulheres e negros. Além de ir ao encontro de uma vocação inclusiva e diversa da área, a contratação de refugiados tem respondido a um movimento de mercado, em que uma língua nativa diferente do português, longe de ser um problema, é oportunidade. Algumas das principais empresas que atuam no Brasil possuem operações voltadas ao atendimento de consumidores em outros países”, explicou Antônio Guilherme Noronha, presidente da ABT.

De acordo com o executivo, a atuação das companhias tem crescido no exterior, o que gera uma lacuna por colaboradores que dominem outros idiomas. “Estes operadores são cada vez mais requisitados. Neste sentido, a relação do setor com os refugiados é uma via de mão dupla. Ao mesmo tempo em que temos ajudado a transformar a vida destas pessoas, elas têm nos ajudado a ganhar um importante mercado. E uma das vantagens do telesserviço é justamente não exigir experiência prévia. Ele é muito democrático neste sentido e acolhe quem não tem ainda um currículo. As próprias corporações investem na qualificação dos seus colaboradores. As pessoas são tão bem treinadas que, em um curto espaço de tempo, é possível evoluir na carreira”.

Um setor inclusivo e democrático

Um dos exemplos é Kiria Flores, 33 anos, que chegou ao Brasil em 2019, fugindo da grave crise de escassez de alimentos que atravessava a Venezuela. Formada em Relações Industriais e morando na cidade de Puerto Ordaz, ela enfrentava o forte desemprego do país quando migrou para a fronteira entre o Brasil e a Venezuela. Na região, Kiria vendia roupas e alimentos para se sustentar e cuidar da mãe doente. Com dinheiro emprestado e incentivo de amigos no Brasil, conseguiu enfim desembarcar no Rio de Janeiro, onde trabalhou como bartender por alguns meses. Em 2020, com a pandemia e o fechamento do comércio, foi para São Paulo à procura de novas possibilidades.

Há quase três anos na Foundever, fornecedora global de produtos e soluções de experiência do cliente, que conta com cerca de 700 refugiados em seu quadro de funcionários, Kiria viu a oportunidade de emprego nas redes sociais e se cadastrou. Para sua surpresa, foi chamada para trabalhar como analista de chat de uma nova conta que estava entrando na empresa e necessitava de colaboradores que dominassem espanhol. Nove meses depois, foi promovida a supervisora de operações de uma multinacional de eletrônicos, cargo que ocupa há um ano e nove meses, atendendo clientes da América Latina. “Nunca tinha trabalhado dentro de uma empresa. Não achava que fosse ficar muito tempo por conta da pouca experiência. Mas fui muito preparada ao longo do processo, participei de diversas capacitações e treinamentos e fui crescendo aos poucos”.

Há dois anos, Kiria conseguiu juntar dinheiro e trouxe a mãe e a sobrinha para morarem com ela no Brasil. O telesserviço também foi uma oportunidade para sua namorada, que estava refugiada no Paraguai, antes de chegar em solo brasileiro. “O call center me deu uma chance de reconstruir a minha vida. Me sinto valorizada e acolhida. Ter um emprego formal me deu acesso a benefícios e à educação que eu não teria na Venezuela”.

Também migrante da Venezuela, região de Gran Sabana, Marianny Carrera, 22 anos, passou por quatro refúgios. Com apenas o ensino médio completo no currículo, no país de origem, conta ela, ou se estuda ou se trabalha para viver. “Ainda estamos em um processo de estruturação econômica. A gente precisa optar. Eu não tinha estabilidade econômica para pagar uma faculdade e ainda ajudar a minha família. Então trabalhava vendendo alimentos na rua. Mas sempre sonhei em estudar e ter um emprego fixo”.

Antes de se estabelecer no Brasil, no final de 2021, ficou três meses na fronteira enfrentando problemas de documentação, devido à grande quantidade de pessoas em situação semelhante. A partir de um programa de interiorização de uma organização para refugiados, conseguiu ir para São Paulo. Na cidade, já em outro refúgio, por meio de uma ONG, foi inscrita para concorrer a uma vaga em uma empresa de call center. Em pouco tempo foi chamada para trabalhar na Teleperformance (TP), que tem migrantes de mais de 20 países diferentes, incluindo Angola, Haiti e Cuba. 

Assim como Kiria, Marianny passou por diversos treinamentos dentro da companhia. Há dois anos trabalhando como Expert em Interação Bilíngue da TP, vendendo produtos e serviços de um gigante da tecnologia, está prestes a se tornar supervisora, após ser aprovada em um programa de desenvolvimento de carreira. Ainda este mês, a venezuelana vai realizar outro grande sonho: cursar faculdade de marketing – conciliando com o trabalho.

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