O que vamos levar na volta ao escritório?

A forma como trabalhamos não será a mesma com o retorno ao local de trabalho

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Priscila Monaco
Priscila Monaco

Autora: Priscila Monaco

Nos últimos meses, aprendemos a tratar a tecnologia como nossa aliada, aproveitando ferramentas digitais para manter a aproximação com os times, a fazer gestão a distância, com os líderes repensando suas atitudes e prioridades, a se colocar no lugar do outro e exercitar a empatia com mais frequência, a perceber como encontros e atividades informais podem aliviar a pressão do dia a dia, a olhar mais de perto a saúde mental do nosso time.

É natural – e necessário – que a gente leve para o futuro esses ensinamentos. Tenho certeza de que a forma como trabalhamos não será a mesma com o retorno aos escritórios, que muitas empresas começam a planejar de maneira gradual. Não falo apenas da reestruturação física para garantir o distanciamento nem das medidas práticas de higiene, saúde e segurança, mas de uma reflexão maior sobre nosso relacionamento com as pessoas. Colocamos à prova uma série de tabus corporativos para reescrever uma nova cartilha de conduta.

A expectativa do funcionário em relação às políticas da empresa e ao comportamento dos gestores mudou de uma hora para a outra. Não adianta seguir com velhos hábitos, é hora de repensar nossa conduta.

Desde o início da pandemia, nosso foco foi estabelecer uma comunicação clara, transparente e assídua com todos os colaboradores no sentido de mantê-los bem informados, acolhidos e seguros física e mentalmente. Ouvimos bastante os desejos to time. Usamos a tecnologia a nosso favor para promover ações de cuidado e adaptação de nossos benefícios para melhor atendê-los, como consultas médicas e odontológicas realizadas por videoconferência, digitalização de processos de reembolsos médicos e atendimentos e sessões virtuais em grupos e individuais com psicólogos e psiquiatras, entre outras. Usamos a tecnologia a nosso favor como um possibilitador, mas sempre com o norte o bem estar do time.

Trabalhamos lado a lado com a área de Comunicação Corporativa em ações semanais. Vídeos de nossos líderes, newsletter com instruções e orientações de como lidar com a situação, atividades on-line para fazer com as crianças, dicas de entretenimento e programas voltados ao bem-estar e saúde física e mental foram fundamentais nesse período.
Havia uma preocupação em manter a operação e as entregas, mas também o desafio de levar para a casa de cada funcionário um clima de cordialidade e amizade. Junto com o time de Comunicação Corporativa, organizamos um programa para as pessoas relaxarem após o expediente, levando a elas aulas de culinária, dicas de sommelier, atividades recreativas. Estimulamos a realização de happy hours virtuais entre as equipes a fim de manter o vínculo com os colegas.

Aos poucos, notamos que a produtividade, mesmo de casa, era a mesma ou até maior do que antes. As interações por videoconferências funcionavam bem, com uma dinâmica até mais participativa. Os momentos de encontros informais ajudaram no engajamento dos times e no estímulo à criatividade. Aprendemos a flexibilizar horários, com foco maior nos objetivos e nas entregas.

Até o nosso processo de contratação e on-boarding de novos funcionários admitidos durante a pandemia foram inovados e adaptados para formatos digitais. Praticamente tudo foi convertido ao on-line!

No papel essencial de comandar essa transformação, a liderança teve que se reinventar: estar mais próxima e atenta para não perder o momento do funcionário. Foi preciso desenvolver o olhar do gestor para identificar algum mal-estar, analisando, por exemplo, a linguagem corporal durante interações por vídeo.
Ao pensar na reabertura dos escritórios, precisamos agir com base em um plano estruturado com critérios de segurança e restrições, que leve em conta a opinião do time. Por meio de pesquisas, conseguimos entender melhor o desejo dos funcionários e suas preocupações. É a fase de equilibrar cuidados físicos e emocionais para garantir a segurança de todos e evitar uma ruptura muito drástica na rotina.

Na Visa, por exemplo, iniciamos esse retorno aos poucos, alternando os dias de trabalho e deixando a decisão na mão de cada funcionário. Aos que optaram por voltar ao escritório, adotamos uma política com regras cautelosas, visando garantir a segurança de todos, como usar máscaras sempre que estiverem fora da estação de trabalho, ter a temperatura aferida na entrada do condomínio e no andar, estabelecer uma distância maior de 3 metros entre as bancadas e até eliminar estações de trabalho personalizadas (ninguém possui mais a “sua mesa”).

Tivemos que pensar em cada detalhe e continuamos fazendo isso continuamente. Definimos, por exemplo, que o melhor seria levar o almoço de casa ou fazer uso do serviço de delivery dos restaurantes, evitando os deslocamentos na região em ambientes que estão fora do nosso controle. Optamos por fechar as salas de reuniões e manter as interações de forma virtual, além de estabelecer um fluxo único de pessoas dentro do escritório para evitar aglomerações.

Sem dúvida, é um novo modo de operar, que exige cooperação e compreensão. Por isso, continuo ouvindo ativamente o que o time tem a dizer para aprimorar e rever as medidas. Daqui para a frente, temos o desafio de reaprender a nos relacionar respeitando um novo código de convivência.

Priscila Monaco é diretora de RH da Visa.