Tamara Lorenzoni, mestre em Gestão de Marcas de Luxo pela Domus Academy Milano

O desejo também se constrói depois da compra

Quando promete permanência, uma marca de luxo assume um compromisso com a vida do objeto e com quem o escolheu

Autora: Tamara Lorenzoni

Há uma contradição em vender uma peça como algo que atravessará gerações e organizar o relacionamento com o cliente apenas até a próxima coleção. A promessa tem um horizonte longo. O interesse comercial, quando se limita a estimular outra compra, revela um horizonte bastante mais curto. É nessa distância que parte do valor do luxo pode se perder.

Os resultados divulgados em outubro de 2026 ajudam a dimensionar a pressão sobre o setor. Na LVMH, a receita de moda e artigos de couro recuou 5% em termos orgânicos no terceiro trimestre, enquanto relógios e joias avançaram 6%. Na Kering, a Gucci registrou queda de 6% em bases comparáveis no mesmo período. São desempenhos de empresas e categorias específicas, sujeitos a diferenças de exposição geográfica, produto e momento criativo. Não autorizam um diagnóstico único sobre o consumidor. Mostram, porém, por que o mercado precisa examinar com mais rigor aquilo que sustenta a disposição de comprar.

A discussão costuma se concentrar no lançamento capaz de recuperar o desejo. Há outra dimensão que merece atenção: o que acontece com a peça que o cliente já comprou. Sua experiência de uso oferece evidências sobre a marca que nenhuma campanha consegue produzir sozinha. Um fecho que pode ser reparado, uma orientação competente sobre conservação e uma avaliação técnica bem explicada dão conteúdo à ideia de permanência.

O valor simbólico depende de significados compartilhados. Procedência, domínio de um ofício e continuidade histórica fazem um objeto representar mais do que sua função imediata. Essa dimensão cultural convive com uma realidade material: a peça será usada, sofrerá desgaste e exigirá cuidado. Quando uma marca invoca seu saber artesanal para justificar uma escolha, a capacidade de cuidar do que produziu passa a integrar a credibilidade desse argumento.

A Hermès, por exemplo, informa em seu site brasileiro que suas oficinas atendem a diferentes solicitações de reparo e reforma. O objeto deve ser examinado em loja, com estimativa de custo e prazo para a intervenção. A Louis Vuitton descreve, em seu site norte-americano, um fluxo de reparo pelo aplicativo que inclui contato com especialista, envio da peça e acompanhamento do serviço. São práticas documentadas em seus respectivos mercados; sua existência não permite presumir execução uniforme em cada atendimento. Ainda assim, tornam visível uma escolha estratégica: manter uma estrutura para a vida do produto depois da venda.

Isso altera a leitura do pós-venda. Tratá-lo exclusivamente como despesa reduz a análise ao custo da intervenção. Falta considerar a evidência que aquele atendimento fornece sobre a compra anterior e sobre a próxima. Se a marca vende confiança em sua capacidade de produzir, o momento do reparo permite avaliar até onde essa capacidade se estende.

Consideremos uma situação hipotética: uma cliente procura a boutique porque a alça de uma bolsa precisa de reparo. O consultor registra o estado da peça, explica o que será submetido à avaliação e combina quando retornará com uma posição. Se o prazo mudar, ele informa antes que a cliente precise cobrar. Na devolução, apresenta o trabalho realizado e as recomendações de uso. O cuidado está na responsabilidade assumida por alguém ao longo do processo. O cliente consegue compreender o que está acontecendo com um objeto que lhe pertence.

Nenhuma dessas ações depende de um presente, de uma sala reservada ou de uma nova oferta. Dependem de conhecimento, coordenação e compromisso. Também exigem honestidade: há intervenções inviáveis, materiais com limitações e desgastes que não podem ser revertidos. Explicar esses limites com precisão preserva melhor a relação do que uma promessa que a oficina não poderá cumprir.

Essa discussão ganha relevância diante de um consumidor com mais recursos para investigar suas escolhas. Pesquisa divulgada por Bain e Comité Colbert em junho de 2026 aponta que 47% dos compradores em lojas físicas da amostra recorreram à inteligência artificial antes da visita. O dado se refere aos participantes do estudo e não deve ser extrapolado automaticamente para o Brasil. Sua implicação estratégica, entretanto, merece atenção: a visita à boutique pode começar depois de uma etapa de pesquisa sobre qualidade, características e alternativas.

Minha leitura é que esse acesso à informação aumenta a importância de tornar o conhecimento da marca verificável. A história de uma técnica ganha força quando o profissional sabe explicar como ela afeta o uso. A escolha de um material se torna mais compreensível quando suas qualidades e restrições são apresentadas com clareza. O repertório deixa de funcionar como ornamentação do discurso e passa a melhorar a decisão do cliente.

Para as marcas brasileiras, isso abre um campo de diferenciação que merece ser construído a partir dos próprios ofícios e materiais. Quem reivindica domínio sobre uma técnica precisa organizar a transmissão desse conhecimento, inclusive para as equipes que recebem dúvidas e solicitações depois da compra. O saber que existe na produção deve alcançar o relacionamento. De pouco serve celebrar a habilidade de um artesão se ninguém consegue explicar ao cliente como conservar a peça que ele fez.

O setor seguirá precisando de criação e novidade. Mas a peça já vendida continua trabalhando sobre a reputação de quem a produziu. Ao cuidar dela, a marca oferece uma razão concreta para que sua promessa de permanência seja levada a sério. O desejo pela próxima compra também pode nascer da certeza de ter sido bem acompanhado na anterior.

Tamara Lorenzoni é consultora especializada no mercado de luxo e alto padrão.

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