Centralização de decisões e apego a modelos de gestão podem limitar os ganhos de produtividade e o retorno dos investimentos em inteligência artificial
Autor: João Paulo Batistella
Investir em inteligência artificial sem rever a forma de administrar o negócio pode deixar uma empresa com ferramentas mais rápidas e os mesmos problemas de execução. Análises produzidas em minutos continuam à espera de aprovação, equipes ganham capacidade de trabalho sem autonomia para alterar rotinas e projetos ficam restritos a testes. Nessas condições, as decisões de CEOs e executivos podem se tornar um obstáculo aos resultados que a própria liderança espera da tecnologia.
O histórico de sucesso ajuda a explicar por que determinadas práticas permanecem intocáveis, mesmo quando começam a apresentar sinais de desgaste. Ao preservar processos que funcionaram durante anos, a direção pode deixar de avaliar se eles ainda atendem às necessidades da operação. Uma decisão que trouxe bons resultados no passado pode precisar de revisão. O risco é transformar essa experiência em uma justificativa para manter tudo como está .
A resistência não depende de uma proibição explícita ao uso da IA: basta aprovar a compra de ferramentas sem reservar tempo para treinamento ou exigir resultados sem definir o problema que o projeto deve resolver. Quando as equipes também não podem modificar os fluxos de trabalho, a tecnologia acaba acomodada à estrutura existente, inclusive às etapas que poderiam ser simplificadas ou eliminadas.
Se uma análise comercial fica pronta mais cedo, mas passa dias entre diferentes níveis de aprovação, o cliente pode continuar esperando ao mesmo tempo por uma resposta. A economia de horas em uma tarefa, portanto, não garante uma operação mais eficiente. É preciso acompanhar o percurso da informação até a decisão e identificar onde o ganho se perde. A empresa precisa observar o que acontece depois que a ferramenta entrega o trabalho. O atendimento melhorou? O retrabalho diminuiu? A decisão ficou mais bem fundamentada? É essa conexão que permite avaliar o resultado.
Ao discutir mudanças na operação, a liderança também precisa estabelecer limites para o uso da tecnologia, com proteção de informações, avaliação da qualidade dos dados e revisão humana conforme o risco de cada aplicação. Regras claras dão às equipes condições de testar soluções e permitem à direção acompanhar seus efeitos. Sem responsáveis, prazos e indicadores definidos, torna-se difícil distinguir um projeto que precisa de ajustes de outro que não justifica novos investimentos.
Escolher um gargalo concreto e medir seu impacto sobre custos, atendimento ou qualidade das entregas oferece um ponto de partida para ampliar a adoção da IA. Esse trabalho exige disposição para rever também as decisões da direção, sobretudo quando elas mantêm etapas que já não contribuem para o negócio. A responsabilidade do CEO continua depois da aprovação do orçamento. Cobrar que a equipe se adapte e manter os processos de gestão intocáveis cria um limite para a transformação. A liderança precisa avaliar quais mudanças dependem dela para que o investimento produza resultado.
João Paulo Batistella é executivo de inovação, especialista em Inteligência Artificial, transformação digital e organizacional, e autor do livro Legado Inteligente (AI Rival).




















