Não adianta colocar um agente de IA sobre uma operação mal estruturada e esperar que a tecnologia resolva tudo
Autora: Nicola Sanchez
Durante anos, a Inteligência Artificial foi apresentada às empresas como uma ferramenta de apoio. Um recurso capaz de responder perguntas, resumir documentos, analisar dados ou ajudar um profissional a escrever e-mails. Em outras palavras, uma tecnologia que aumentava a capacidade de quem já estava trabalhando. Mas essa lógica está mudando.
Com o avanço da IA agêntica, começamos a entrar em uma fase em que a Inteligência Artificial não apenas auxilia um profissional, mas pode assumir determinadas atividades de ponta a ponta. É uma mudança importante porque estamos deixando de falar apenas de ferramentas e começando a falar de uma nova força de trabalho.
Um agente de IA pode, por exemplo, receber uma demanda de atendimento, consultar o histórico do cliente, identificar o problema, buscar informações em diferentes sistemas e encaminhar uma solução. Em outro contexto, pode analisar dados, identificar uma oportunidade e iniciar um processo comercial. A diferença está na autonomia pois a IA deixa de esperar pelo comando para cada etapa e passa a executar um fluxo de trabalho.
Isso não significa, necessariamente, substituir pessoas. Significa repensar o que as pessoas fazem. Quando uma empresa automatiza uma atividade repetitiva, o profissional pode dedicar mais tempo àquilo que exige julgamento, criatividade, relacionamento e tomada de decisão. O ganho não está apenas em fazer a mesma coisa mais rápido, mas em permitir que pessoas e agentes trabalhem de maneiras complementares.
Novas formas de trabalho, exigem revisão de processos
O desafio é que essa mudança também exige que as empresas revejam seus próprios processos. Não adianta colocar um agente de IA sobre uma operação mal estruturada e esperar que a tecnologia resolva tudo. É preciso definir objetivos, estabelecer limites, organizar dados, determinar níveis de autonomia e criar mecanismos de monitoramento.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas “quanto a IA consegue fazer?”. Deveríamos perguntar também: “o que queremos que ela faça e onde ainda precisamos estar no controle?”.
Essa discussão será cada vez mais importante à medida que os agentes ganharem autonomia. Uma força de trabalho digital precisa de governança, rastreabilidade e supervisão. É necessário saber quais informações foram utilizadas, porque determinada decisão foi tomada e quais ações foram executadas. A autonomia não pode significar ausência de controle.
Ao mesmo tempo, existe outro desafio que costuma receber menos atenção que é preparar as pessoas para trabalhar com essas novas “colegas” digitais.
Já existem empresas que oferecem cursos e programas de capacitação em inteligência artificial justamente para facilitar essa integração entre seres humanos e máquinas. Isso mostra que a transformação não depende apenas de desenvolver tecnologias mais sofisticadas, mas também de ensinar profissionais a utilizá-las, supervisioná-las e incorporá-las à rotina.
Da mesma forma que a chegada dos computadores mudou funções e exigiu novas habilidades, a IA agêntica deverá provocar uma transformação semelhante. Algumas atividades serão automatizadas, outras serão ampliadas e novas funções surgirão. O profissional que souber delegar tarefas para agentes, avaliar seus resultados e intervir quando necessário terá uma relação diferente com seu próprio trabalho.
As empresas também precisarão aprender a administrar equipes que não serão compostas exclusivamente por pessoas. Haverá profissionais definindo estratégias e supervisionando processos ao lado de agentes capazes de executar determinadas operações continuamente, em escala e sem as limitações de horário de uma jornada convencional.
Essa convivência pode representar um dos maiores ganhos de produtividade das próximas décadas. Mas ela não acontecerá automaticamente.
O futuro do trabalho não será necessariamente uma disputa entre humanos e máquinas. Pode ser uma colaboração entre os dois desde que as empresas estejam preparadas para definir o papel de cada um.
A questão é que os agentes de IA já estão deixando de ser apenas ferramentas. Em pouco tempo, a pergunta mais relevante para muitas empresas talvez não seja se elas vão usar inteligência artificial, mas se estão preparadas para gerenciar uma força de trabalho que também será digital.
Nicola Sanchez é CEO e fundador da Matrix Go.




















