Jaime Troiano, presidente do conselho da Troiano

Marcas perdem espaço na mente do consumidor nas últimas três décadas

Estudo da Troiano mostra que indicador de desconhecimento das marcas saltou de 5,2% para 38,2% no período, enquanto o vínculo mais intenso caiu 75%

Em três décadas, a conexão entre consumidores e marcas perdeu intensidade, ao mesmo tempo em que cresceu a dificuldade das marcas de permanecer na consciência das pessoas. Essa transformação aparece no estudo “30 anos de marcas: o que mudou?”, da Troiano, que reúne mais de 100 mil entrevistas e 1.543 marcas analisadas ao longo de 30 anos. Entre 1995 e 1999, o desconhecimento das marcas era de 5,2% e passou para 38,2% entre 2020 e 2025, alcançando mais de um terço dos consumidores. Na outra ponta, o vínculo mais intenso com as marcas caiu 75% no período, de 8,3% para 2,1%.

A “Auditoria de Marca”, metodologia proprietária da Troiano usada no estudo, acompanha essa relação em cinco níveis: Desconhecimento (quando a marca não ocupa espaço na consciência), Rejeição (quando é conhecida, mas não desejada), Familiaridade (quando faz parte do repertório do consumidor), Preferência (quando passa a ser uma escolha desejada) e Idealização (quando estabelece o vínculo mais intenso). A partir de dez questões, a metodologia permite identificar não apenas se uma marca é conhecida, mas principalmente o grau de envolvimento que ela estabelece com o consumidor.

Quando estar no mercado já não basta

Os dois extremos da escala apontam o mesmo movimento. De um lado, cresceu o contingente de consumidores que não têm a marca na consciência, não porque nunca ouviram falar dela, mas por ela ter deixado de ocupar um espaço relevante. De outro, o vínculo mais intenso, a Idealização, tornou-se mais raro: é o estágio em que a preferência se converte em uma conexão forte, associada a maior concentração de compras e à disposição de defender a marca.

Para a Troiano, esse deslocamento está relacionado à proliferação de marcas, à fragmentação da atenção e às mudanças nos padrões de comunicação e consumo. E, acima de tudo, pela disputa do espaço mental nos consumidores. “O desafio das marcas mudou de escala. Durante muito tempo, a grande questão foi como ser escolhida. Hoje, em muitos mercados, existe uma etapa anterior e cada vez mais decisiva: conseguir permanecer presente na consciência das pessoas em meio a uma quantidade quase infinita de opções e estímulos”, afirmou Jaime Troiano, presidente do conselho da Troiano.

Entre conhecer e escolher

Nas dez questões que avaliam não só se a marca é conhecida, mas o envolvimento que ela estabelece com o consumidor, as faixas intermediárias também perderam força. Familiaridade, por exemplo, que historicamente é o maior grupo, recuou de 65% para 47% dos consumidores. Já a Preferência caiu de 8% para 4%; e a Rejeição, de 13% para 9%. Para a Troiano, a redução não indica piora generalizada da percepção sobre as marcas, mas a dificuldade crescente de transformar conhecimento em relações mais fortes e estáveis.

O que sustenta uma relação mais forte

O estudo identifica quatro condições que favorecem vínculos mais fortes: produtos e serviços capazes de atender de fato às necessidades dos consumidores; posicionamento único e relevante; relações consistentes e contínuas com o mercado. Presença e frequência de comunicação, isoladamente, não garantem vínculo mais forte.

“Os resultados mostram que não existe solução simples para esse desafio. Marcas fortes não são construídas apenas com presença ou frequência. É preciso entender de forma genuína o que as pessoas pensam e, principalmente, o que sentem. E transformar esse conhecimento em modelos realmente criativos de comunicação”, comentou Jaime.

Em categorias com oferta maior de produtos e serviços funcionalmente semelhantes, a capacidade de construir relevância ganha peso. Para o presidente, a perda de intensidade não diminui a importância das marcas para os negócios; ao contrário, torna mais decisiva a capacidade de criar significado e ocupar um espaço próprio na mente do consumidor.

“Os últimos 30 anos mostram que estar no mercado não é o mesmo que estar na mente das pessoas. Conhecer profundamente os consumidores e transformar esse conhecimento em marcas relevantes é o caminho para construir relações que façam sentido e permaneçam ao longo do tempo. Aliás, All Ries e Jack Trout, no famoso livro “Posicionamento: A Batalha por Sua Mente” (Positioning: The Battle for Your Mind), da década de 1980, já alertavam: ‘o verdadeiro campo de batalha das marcas não é o mercado, mas a mente do consumidores'”, concluiu o executivo.

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