A aposta no ciclo da sustentabilidade

0
6



Um segmento que associa muitas oportunidades, porém com grandes desafios. Estamos falando da limpeza pública de São Paulo, uma das maiores cidades do mundo que reúne mais de 10 milhões de habitantes. Além das necessidades físicas que envolvem o processo completo (ou complexo) de coleta, transporte, separação e descarte dos resíduos, há políticas que envolvem a conscientização da população para manter este trabalho. A Loga, concessionária pública responsável pelos resíduos domiciliares e provenientes dos serviços de saúde da região noroeste da cidade de São Paulo, foi fundada em setembro de 2004 e, desde então, aperfeiçoa essa atividade que, como define Luiz Gonzaga, presidente da empresa, é uma das mais importantes para o bem estar da cidade. Apesar dos serviços de limpeza pública paulistanos terem evoluído muito nos últimos 20 anos, Gonzaga aponta que ainda existem muitas falhas quando comparados aos das grandes cidades internacionais. Ou de exemplos como Lima, no Peru, onde desenvolveu um projeto de recolhimento de lixo que associou conscientização da população, desenvolvido com sucesso e que virou modelo internacional. Em entrevista exclusiva à ClienteSA, o presidente da Loga faz uma profunda avaliação dos desafios da atividade no Brasil, a importância de criar uma cultura nacional para a redução de várias escalas de desperdício e revela como se prepara para atender às demandas dos clientes de um país emergente.

Qual foi sua trajetória profissional até chegar à presidência da Loga?
Formei-me em engenharia civil em 1974, em Belo Horizonte. Fiz uma graduação especializada em transportes, mas como também me interessava pela mecânica, por volta de 1985 fiz um trabalho de gerenciamento na plataforma de petróleo de Enchova, na bacia de Campos. Nesta oportunidade fui gerente da construção do módulo da eletricidade e, na mesma época, participei da construção da plataforma Atum 3, no Ceará. Por volta de 1992 a Vega Sopave, concessionária de limpeza urbana que hoje faz sociedade com a Loga, teve problemas patrimoniais e o Grupo OAS acabou comprando seus ativos. Nesse momento fui convidado a ser gerente comercial da Vega, passando do segmento de petróleo para o de meio ambiente. O primeiro desafio que enfrentei foi tratar do contrato da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, o CEAGESP. Lá acontece uma gigantesca transformação dos restos de alimentos em produtos aproveitáveis adequados para o consumo, que alimentam uma quantidade imensa de pessoas carentes. Após um período de experiência surgiu a oportunidade de ser presidente da Loga.

Quem são os clientes da Loga?
O principal cliente é o munícipe da região noroeste da cidade de São Paulo, que inicia na Penha e vai até o Butantã. São seis milhões de pessoas dependentes desse serviço, e o engraçado é que eu também sou cliente da empresa da qual faço parte. Mas a centralização desses clientes é a prefeitura da cidade de São Paulo.

Como a Loga intearge e recebe o feedback dos clientes?
Fazemos uma pesquisa anual entre os meses de outubro e janeiro, na qual dezenas de itens são avaliadas junto à população. As categorias ótimo e bom chegam a 96% e isso faz com que, muitas vezes, as pessoas não entendam como é que uma cidade tão carente de medidas de limpeza urbana consegue obter esse índice. Mas é fácil explicar: uma coisa é a coleta, o transporte, o tratamento e a destinação final do resíduo; outra é varrer a cidade e conseguir mantê-la limpa. Assim, é fundamental analisar como a população descarta os resíduos. Um exemplo são os catadores. Eles fazem a operação de rasga-saco em busca de materiais de algum valor econômico para poderem sobreviver, mas não colocam de volta os resíduos que não lhes interessam, deixando muito lixo nas ruas e calçadas e dificultando os serviços de limpeza. Mas é claro que esse é um problema menor, pois o núcleo está na falta de conscientização da população.

Até onde vai as suas responsabilidades?
Coletamos, transportamos, tratamos o resíduo produzido em cada domicílio da região, assim como é nossa responsabilidade realizar o mesmo processo com os resíduos dos serviços de saúde dessa região. Esse processo envolve coletar da porta de cada um, conduzi-lo uma estação de transbordo para carretas madrinhas que levarão todo o material para o tratamento de destinação final. Na cidade de São Paulo utiliza-se o sistema de aterro como tratamento, que são muito bem controlados e de acordo com o sistema ambiental. A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, Cetesb, é quem os fiscaliza. No momento estamos trabalhando na readequação de um local que, por muitos anos, fez o transbordo dos resíduos dos caminhões menores para os maiores a céu aberto. No início do ano que vem entregaremos um transbordo construído em pressão negativa, ou seja, não haverá odor ao sistema de filtragem e toda a operação será encapsulada e fechada. Algo que penso que a cidade já deveria ter há tempos são contêineres para cada unidade habitacional. Elas deveriam mantê-los guardados e, quando chegasse na hora do caminhão passar, colocariam o contêiner na via pública para que a coleta fosse feita.

E o complemento dos serviços?
Há o segmento da varrição, que hoje pertence a seis outras empresas. O passeio, por força de lei, é de responsabilidade do município ou do estabelecimento comercial que ali esteja localizado. Existe o entulho da construção e a operação popularmente chamada de cata-bagulho. A pessoa que quer se desfazer de algo grande, como um colchão, um sofá ou uma geladeira, por exemplo, deve acionar a prefeitura da sua região que, por meio de uma terceirizada, faz a coleta do resíduo.

Como o senhor analisa a limpeza pública na cidade de São Paulo?
Esse setor teve um hiato muito grande em termos de investimento. Muito pouco foi investido nas últimas décadas e, para uma cidade como São Paulo, com todo esse dinamismo e crescimento, é preciso que alguém sempre esteja pensando no dia-a-dia da limpeza urbana. No entanto, imaginamos que 2011 será, de fato, o início para a implementação de diversas ações muito importantes, com uma coleta seletiva muito mais arrojada e equipamentos sofisticados, a exemplo dos transbordos, além de programas muito mais eficazes de conscientização da população.

E a política de conscientização?
A conscientização das pessoas é algo que deveria estar presente na própria cultura da população, a começar por aqueles famosos sacos de plástico que causam enorme dano ao meio ambiente. Por isso temos programas de conscientização dentro das escolas, fazemos programas sustentáveis envolvendo a sociedade e, inclusive, nossos funcionários. É preciso que exista uma massificação nos programas de conscientização. Entendo que o principal fator seja o consumo. Via de regra, nós brasileiros somos um pouco excessivos na maneira com a qual consumimos. Este trabalho de conscientização é sobretudo da prefeitura, mas quero reforçar que todos estamos envolvidos, inclusive os órgãos que envolvem a opinião pública, como os meios de comunicação. Recentemente tivemos uma experiência muito positiva em uma universidade paulistana. Fomos discutir sobre o assunto de resíduos e, para a minha surpresa, houve muito interesse. Isso é um sinal de que há uma preocupação de todos. Precisamos aproveitar essa onda e fazer com que a população aprenda a separar e descartar os resíduos. Acredito que hoje as crianças sejam os principais agentes para a mudança, pois quando elas ouvem uma determinada mensagem, guardam, assimilam e depois cobram a posição do adulto. Porque mais do que um problema estético, o lixo é um problema de saúde pública, e limpar a cidade demanda gastos muito maiores do que a manutenção desta limpeza. Não podemos ter o pensamento que se jogarmos lixo na rua terá alguém para recolhê-lo. Isso é um custo que será cobrado da própria pessoa que o joga no chão.

Há algum direcionamento social específico nos programas de conscientização?
Não. O problema existe desde quem dirige um lindo carro pelas ruas de São Paulo e abre a janela para jogar um papel de bala até aquele que é mais humilde. Mas existem muitos segmentos da sociedade que já estão fazendo esforços, a exemplo das redes de supermercados que trabalham com o assunto da coleta seletiva de forma brilhante. No entanto, comparando com a grandeza de nosso país, eu diria que esses programas ainda são modestos. O Brasil esperou cerca de 20 anos para ter uma política nacional de resíduos sólidos, que somente há cinco meses foi sancionada. A lei oferece quatro anos de prazo à população para se integrar ao sistema consciente de descarte de resíduos sólidos. Isso é muito positivo, mas se não começarmos urgentemente a investir, os quatro anos se passarão e não atingiremos o que a lei estabeleceu. O propósito dela não é punir, é educar.

E como a Loga se comunica com seus clientes?
Temos o Serviço de Atendimento ao Usuário, SAU, que repassa o retorno dos clientes diretamente à Loga. Tais retornos são muito importantes para que a empresa organize dados para melhorar a sua condição de atendimento à população. Cada uma das concessionárias que faz a coleta dispõe de um serviço de atendimento ao usuário que é o 0800. A prefeitura também tem um canal de voz para a população, o 135, que funciona como uma centralização das concessionárias.

A cidade de São Paulo tem algum diferencial internacional, onde é modelo?
A cidade seja talvez uma das poucas do mundo na qual 100% de todos os estabelecimentos ligados à área da saúde têm seus resíduos coletados. Não se trata apenas do coletor passar lá e retirar, mas há uma monitoramento com um sistema de quantificação. A cidade de São Paulo hoje produz cerca de 15 mil toneladas de resíduos todos os dias. Os aterros são extremamente controlados, nós não fazemos nenhuma disposição dos resíduos a céu aberto e há uma tecnologia envolvida. Mas ainda cometemos muitos deslizes, pois apenas 1% da capacidade de produção de geração de resíduos é coletada. Escutamos muitas pessoas dizerem que cerca de 95% do alumínio é recuperado, mas devemos lembrar que isso só acontece porque muitas pessoas o recolhem para ter algum sustento e garantir sua sobrevivência. A concessão de 2004 previa a construção de centrais de triagem que deveriam estar funcionando hoje, mas que em função de adequação de tarifas, ainda não foram feitas pelo poder concedente. Por força de lei o produto da central de triagem tem que ser manipulado e conduzido por cooperativas, que nem sempre estão adequadas em nível de profissionalização e eficiência. Eu penso que temos que acelerar para chegar à redução de massa de, pelo menos, 10%.