Rodrigo Cerveira, CMO da Vórtx e cofundador do Strategy Studio

Como as canetas emagrecedoras estão transformando a economia 

A era dos GLP-1 aponta para um cenário em que a decisão de compra tende a se tornar mais seletiva e racional

Autor: Rodrigo Cerveira

Durante décadas, a economia foi construída sobre um pressuposto simples: quanto maior o desejo, maior o consumo. Empresas aperfeiçoaram estratégias para estimular a compra, criar recorrência e transformar impulsos em receita. Agora, pela primeira vez, uma inovação farmacêutica começa a desafiar essa lógica em escala global.

A ascensão dos agonistas de GLP-1, classe de medicamentos que inclui Ozempic, Wegovy e Mounjaro, já ultrapassou o debate sobre emagrecimento. Ao reduzir significativamente o chamado food noise, o ruído mental associado ao desejo constante por comida, esses medicamentos estão provocando mudanças de comportamento que começam a repercutir em diversos setores da economia.

Os números ajudam a explicar o fenômeno. Nos Estados Unidos, estudos mostram que lares com pelo menos um usuário de GLP-1 reduziram seus gastos com supermercado em até 8,2%, enquanto o consumo de salgadinhos e alimentos ultraprocessados caiu cerca de 11%. Não se trata apenas da troca de um produto por outro. Em muitos casos, o impulso para consumir simplesmente diminuiu.

Os reflexos já são percebidos em diferentes mercados. A KPMG estima que a indústria de alimentos e bebidas dos Estados Unidos pode deixar de movimentar cerca de US$ 100 bilhões até 2030. Ao mesmo tempo, empresas ligadas à produção desses medicamentos registram crescimento acelerado. A farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk chegou a atingir um valor de mercado superior ao PIB de seu país de origem, tornando-se um símbolo dessa transformação.

Mas talvez o aspecto mais relevante dessa mudança não esteja na alimentação. O que chama atenção é a possibilidade de redução de diversos comportamentos impulsivos. Pesquisas indicam que os medicamentos também podem influenciar mecanismos de recompensa ligados ao consumo de álcool, apostas e compras compulsivas. Se essa tendência se consolidar, o impacto econômico poderá ser ainda mais amplo do que se imaginava inicialmente.

Na saúde, os resultados também começam a redesenhar projeções de longo prazo. O estudo SELECT, publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que a semaglutida reduz em 20% o risco de infartos, AVCs e mortes por causas cardiovasculares. Já pesquisas recentes publicadas na Nature Medicine apontam associações positivas em dezenas de condições de saúde. A consequência potencial é uma redução expressiva de internações, tratamentos de alta complexidade e custos assistenciais, beneficiando tanto sistemas públicos quanto operadoras privadas.

No Brasil, a adoção dessas terapias avança rapidamente. O país já supera a média global de utilização, com cerca de 5,5% da população fazendo uso de alguma caneta emagrecedora. O mercado movimenta aproximadamente R$ 10 bilhões por ano e deve continuar crescendo nos próximos anos.

Essa transformação também cria oportunidades. Com perdas de peso que frequentemente variam entre 15% e 20% ao longo do tratamento, o setor de vestuário já observa mudanças no comportamento dos consumidores. O banco Bernstein projeta uma injeção de até US$ 13 bilhões anuais na indústria da moda norte-americana, impulsionada pela necessidade de renovação do guarda-roupa. Algumas marcas já relatam alterações no mix de tamanhos e no perfil de consumo de seus clientes.

O segmento de bem-estar segue a mesma direção. Academias, programas de atividade física, produtos voltados à saúde e marcas esportivas tendem a se beneficiar de consumidores cada vez mais engajados na manutenção dos resultados obtidos com o tratamento. No Brasil, o crescimento consistente das redes de academias e da moda esportiva reforça essa tendência.

Por aqui, um dos marcos mais importantes pode ocorrer com o avanço dos genéricos e similares da semaglutida após a quebra de patente. A ampliação do acesso tem potencial para acelerar ainda mais a adoção desses tratamentos, tornando seus efeitos econômicos mais visíveis e abrangentes.

O desafio para as empresas será compreender um consumidor diferente daquele que dominou as últimas décadas. Se parte do crescimento econômico recente foi sustentada pela lógica do excesso, com mais estímulos, mais consumo e mais recorrência, a era dos GLP-1 aponta para um cenário em que a decisão de compra tende a se tornar mais seletiva e racional.

A discussão sobre esses medicamentos, portanto, vai muito além da saúde ou da estética, pois sinaliza uma mudança profunda no comportamento humano. Se o século XX foi marcado pela expansão do consumo, os próximos anos podem ser definidos pela capacidade de escolher melhor o que realmente merece nossa atenção, nosso tempo e nosso dinheiro. Para as empresas, o desafio deixa de ser estimular o desejo a qualquer custo e passa a ser construir relevância genuína.

Rodrigo Cerveira é sócio e CMO da Vórtx e cofundador do Strategy Studio.

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