Rodrigo Cerveira, CMO da Vórtx e cofundador do Strategy Studio

Carrinho de compras cheio, pensamento vazio: a era dos “dopamine sites”

Quando terceirizamos a produção de conteúdo para a inteligência artificial e a satisfação emocional para um carrinho de compras fantasma, o que sobra para nós?

Autor: Rodrigo Cerveira

Vivemos na era em que a criatividade como diferencial, que tanto defendo, cedeu espaço à conveniência da alienação. Recentemente, a Coreia do Sul nos apresentou mais uma de suas eficientes e perturbadoras exportações comportamentais: os dopamine sites. Para quem ainda não cruzou com essa novidade, trata-se de plataformas que simulam, com perfeição, toda a jornada de uma compra on-line. Você navega, escolhe, compara, coloca no carrinho e faz o checkout. A única diferença? Você não gasta um centavo e, obviamente, nenhum produto chega à sua porta.

A premissa parece inofensiva, até terapêutica. Um “simulador de compras” para aliviar a ansiedade e frear o consumismo desenfreado em tempos de inflação alta. Mas, se olharmos com o mínimo de profundidade, é uma tragédia sermos todos previsíveis. Estamos hackeando nosso próprio cérebro, entregando a ele o pico de dopamina da caça e do abate virtual, sem a consequência do boleto. É o fast-food do prazer neurológico.

O que me assusta não é o aplicativo em si, mas o sintoma que ele revela. Estamos tão viciados na mecânica do clique e da recompensa imediata que a ilusão do consumo já nos basta. E isso nos leva a um paralelo inevitável com a Teoria da Internet Morta a hipótese, cada vez menos conspiratória e mais palpável, de que a web se tornou um deserto povoado por bots conversando com bots, gerando conteúdo sintético para alimentar algoritmos que aí se apresentam para pessoas viciadas na tela.

Se a internet está morta, os dopamine sites são o nosso coma induzido.

Pense bem: na Internet Morta, a máquina simula a criação; nos dopamine sites, o humano simula o consumo. Em ambos os cenários, o que se perde é a substância, a agência, o atrito que gera o pensamento crítico. Quando terceirizamos a produção de conteúdo para a inteligência artificial e a satisfação emocional para um carrinho de compras fantasma, o que sobra para nós?

A provocação: não estamos deixando de pensar por nós mesmos?

Ao nos contentarmos com a simulação, seja do texto gerado por IA que não questiona, seja da compra que não existe, estamos atrofiando nossa capacidade de escolha real. A decisão humana, com suas falhas, dúvidas e consequências, é insubstituível. Mas ela exige esforço. Exige lidar com a frustração do limite do cartão de crédito ou com a página em branco de um artigo de opinião.

Quando o marketing e a tecnologia se unem apenas para anestesiar nossas ansiedades com picos artificiais de dopamina, deixamos de ser consumidores e passamos a ser consumidos. O carrinho de compras pode estar cheio na tela, mas é a nossa autonomia intelectual que está sendo esvaziada no processo. E, diferente do aplicativo, essa conta vai chegar. E será alta.

Rodrigo Cerveira é sócio e CMO da Vórtx e cofundador do Strategy Studio.

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