Um navio chamado mercado

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O quadro desenhado em minha mente é o de estarmos em alto-mar, a bordo do navio Mercado Global, enquanto a meteorologia indica convergência tropical. O pessoal da terra – o governo – terá grande dificuldade para chegar até a embarcação, que pode ficar à deriva. Impossível abandonar um navio que está em águas profundas, com ondas gigantescas e forte turbulência. Portanto, relaxe e pense em como você vai conviver com a situação e relacionar-se com a tormenta, pois parece ser a única saída.

Alguns países detêm os conhecimentos sobre a criação de produtos e serviços com maiores taxas de desejo do mercado global. Tornaram-se fortes e, no contexto das trocas internacionais, suas moedas adquiriram mais poder de troca que as de outros países. Assim, ficaram conhecidos como países desenvolvidos. Em todas as praças do mercado, são três os pilares de sustentação: produtos e serviços, sistema monetário e consumidores. O sistema monetário globalizou-se. Todos os países imprimem seus papéis-moeda obedecendo à disciplina instituída pelo Federal Reserve, em troca dos Treasure Bonds. Não há a menor possibilidade de extirpação de um país desse sistema monetário, porque o mercado é a intercorrelação social dos segmentos.

Comparando o mercado a um organismo, estamos vivendo um momento de convulsões e infecção generalizada, sintomas de uma virulência que se espalha globalmente com uma rapidez impressionante. E os sistemas de saúde, leia-se países, não têm como atender os doentes, a maioria esmagadora sem plano de saúde. E o corpo médico também está se infectando. A crise financeira na qual estamos imersos funciona mais ou menos como uma desagradável e inesperada infecção generalizada do mercado. Uma doença nova, desconhecida, e estamos ainda longe de desenvolver uma vacina contra ela.

Aparentemente, tudo começou com o Sistema Monetário. Arriscando uma abordagem contábil para esse caos, diríamos que o valor das aplicações das moedas sofreu um decréscimo jamais visto de forma tão disseminada. Mas, como é preciso que as origens sejam iguais às aplicações, tem de haver um ajuste. E quem mais sofre é o disponível: caixa e bancos. Quem tem caixa, sobrevive por mais tempo. Os demais amargarão perdas.

Os governos de plantão passaram a usar reservas e emitir moeda para salvar as empresas em dificuldade. Mas o problema não estava na qualidade ou no desejo pelos produtos e serviços das empresas, mas no ativo circulante, intoxicado por moeda tóxica misturada às verdadeiras. Os consumidores ficaram desconfiados e pararam para pensar melhor antes de gastarem. Os fornecedores ficaram desconfiados e sem crédito para produzir.

Instalou-se uma encrenca que se espalhou por onde essas moedas circulam. O sistema que imprime o dólar, a moeda mais aceita globalmente, ficou tão intoxicado que há uma espécie de alergia e aversão a qualquer operação cujo valor seja calculado com base nele. O FED admitiu que a contrapartida de seus negócios (Títulos do Tesouro Americano) pode perder valor.

Na famosa Fifth Avenue de Nova York, na segunda semana de janeiro, eu vi lojas oferecendo descontos de 70% a 80%. Enquanto isso, nos quatro dias de duração do maior evento de varejo mundial – o Big Show, da National Retail Federation (NRF) -, varejistas e vários especialistas de todo o mundo discutiam seriamente sobre maneiras de continuar encantando os clientes.

João Batista Ferreira

Titular da J2 Marketing