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Ewerton Camarano, CEO da Uliving

A geração que prefere comunidade a isolamento

Promover conexão passa pela arquitetura dos espaços, mas depende, sobretudo, de uma operação ativa, capaz de estimular interações, criar dinâmicas e sustentar um ambiente acolhedor e diverso

Autor: Ewerton Camarano

Ao mesmo tempo em que os indicadores de saúde mental, dependência digital e isolamento entre os jovens acendem alertas no Brasil, um movimento igualmente relevante começa a ganhar forças e merece atenção. As novas gerações não apenas reconhecem esses impactos, como passam a reagir a eles de forma mais consciente, revistando prioridades e, principalmente, a forma como se relacionam.

Um estudo recente da Lovehoney indica que essas transformações fazem parte de um movimento cultural mais amplo. A geração Z, ao combinar curiosidade e abertura para experimentar com os impactos da crise do custo de vida, vem dando mais valor a relações profundas, construídas a partir de diálogo, consentimento e presença emocional.

Essa mudança já é percebida no comportamento da nova geração. Há uma busca mais intencional por conexões reais, convivência e experiências que extrapolam o ambiente digital. E esse movimento se torna ainda mais evidente em momentos de transição, como a saída da casa dos pais, quando o jovem precisa reconstruir, do zero, sua rede de apoio. É nesse ponto que o senso de comunidade deixa de ser acessório e passa a ser central.

O que se observa, na prática, é que a convivência deixou de ser consequência e passou a ser critério de escolha. Ambientes compartilhados são ocupados de forma ativa e intencional. Áreas de estudo coletivas, cozinhas comuns e espaços de convivência ganham vida porque atendem a uma demanda real de troca, pertencimento e interação no cotidiano.

A pandemia teve um papel determinante nessa transformação. Ao impor o distanciamento e digitalizar praticamente todas as interações, acelerou um processo de saturação. Para muitos jovens, especialmente universitários, houve uma ruptura concreta na experiência de formação: uma geração inteira deixou de vivenciar o campus, encontros informais que, muitas vezes, são tão formadores quanto a sala de aula.

O que emerge no pós-pandemia vai além de uma volta ao presencial, mas uma revalorização do que ele representa. O encontro deixa de ser trivial e passa a ser intencional. Pertencer volta a ser relevante. 

Esse novo comportamento tem impulsionado uma evolução no próprio conceito de moradia. Especialmente nos grandes centros urbanos, onde a solidão se tornou um dos principais desafios da vida contemporânea. Modelos de moradia que estimulam a interação, oferecem espaços compartilhados qualificados e criam oportunidades de convivência passam a ganhar preferência. Mas existe um ponto crítico nessa equação, porque a infraestrutura, por si só, não cria comunidade.

Promover conexão exige desenho e gestão. Passa pela arquitetura dos espaços, mas depende, sobretudo, de uma operação ativa, capaz de estimular interações, criar dinâmicas e sustentar um ambiente acolhedor e diverso. Sem essa intencionalidade, o que se tem são espaços compartilhados subutilizados, não comunidades. É justamente nesse nível que o modelo evolui. A moradia deixa de ser um produto estático e passa a ser uma experiência contínua, onde a gestão do ambiente é tão relevante quanto a estrutura física.

Os efeitos são perceptíveis em diferentes camadas. No aspecto emocional, a construção de redes de apoio reduz a sensação de isolamento e contribui diretamente para o bem-estar. No campo social, a convivência cotidiana desenvolve habilidades fundamentais, como empatia, comunicação e adaptação. Já do ponto de vista acadêmico e profissional, a troca constante amplia repertório, gera conexões e abre oportunidades.

Talvez a mudança mais relevante esteja na própria definição de independência. Se, por muito tempo, ela foi associada a um ideal de autonomia individual e isolamento, hoje passa a incorporar uma nova lógica: é possível ser independente sem estar sozinho. Autonomia e pertencimento deixam de ser opostos e passam a coexistir.

Esse reposicionamento não é pontual. Ele reflete uma transformação mais ampla na forma como essa geração entende qualidade de vida, relações e até sucesso.

Diante disso, tratar a busca por comunidade como tendência seria subestimar o fenômeno. Trata-se de uma mudança estrutural, que já começa a redefinir expectativas, influenciar decisões e pressionar setores inteiros a se adaptarem.

No fim, o que está em jogo não é apenas onde as pessoas moram, mas como elas escolhem viver. E, para uma geração que cresceu hiperconectada, viver bem, hoje, passa necessariamente por não viver sozinho.

Ewerton Camarano é CEO da Uliving.

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