As empresas não disputarão apenas a preferência das pessoas, mas precisarão também conquistar a preferência dos algoritmos que decidirão por elas
Autor: Maurício Mansur
Durante anos, a discussão sobre inteligência artificial esteve centrada em uma pergunta: quais empresas conseguirão adotar essa tecnologia primeiro e qual delas está preparada para isso? Hoje, a pergunta mais importante é outra.
O acesso à inteligência artificial está se tornando cada vez mais democrático. Ferramentas que antes estavam restritas às grandes empresas passam a fazer parte da rotina de organizações de todos os portes. Em pouco tempo, automatizar processos, gerar conteúdo, personalizar campanhas ou prever demanda deixará de ser um diferencial competitivo para ser o novo padrão e o que realmente distinguirá as empresas será a capacidade de transformar essas ferramentas em melhores decisões. Principalmente no varejo, essa mudança já começou.
Durante décadas, decisões sobre compras, estoques, promoções e relacionamento com clientes foram tomadas com base em históricos de vendas, experiência dos gestores e capacidade de reação. A inteligência artificial inaugura uma lógica diferente: decisões orientadas por dados, predições e aprendizado contínuo. Nos supermercados,por exemplo, algoritmos já ajudam a prever demandas, reduzir rupturas, evitar desperdícios e monitorar gôndolas. No comércio eletrônico, influenciam recomendações de produtos, precificação dinâmica, campanhas de marketing, atendimento e conversão de vendas. Mas esses exemplos representam apenas a superfície da transformação.
O maior impacto da inteligência artificial não está em fazer as mesmas tarefas mais rapidamente, mas em permitir que empresas decidam melhor. Comprar a quantidade certa de produtos, identificar quais clientes têm maior propensão de compra, antecipar mudanças de comportamento e direcionar investimentos de forma mais eficiente são decisões que passam a ser tomadas com um nível de precisão impossível há poucos anos e isso também muda a forma de medir maturidade digital.
Ainda existe uma corrida por contratar novas plataformas, testar ferramentas e incorporar soluções baseadas em IA. No entanto, possuir muitas tecnologias não significa gerar mais valor.
A pergunta que líderes deveriam fazer é simples: quantas decisões passaram a ser melhores graças à inteligência artificial? E qual foi o impacto financeiro dessas decisões? Essa mudança de perspectiva ajuda a evitar outro erro comum: acreditar que a tecnologia resolverá problemas estruturais da empresa.
A inteligência artificial não corrige processos desorganizados, dados inconsistentes ou estratégias mal definidas. Na prática, ela apenas acelera aquilo que já existe. Quando a base é ruim, os erros também acontecem em maior velocidade.
Por isso, empresas que desejam iniciar essa jornada deveriam começar identificando um problema concreto do negócio, como desperdício, ruptura de estoque, baixa conversão ou ineficiência operacional, antes mesmo de escolher uma ferramenta. Há ainda uma transformação que começa a ganhar força e poderá redefinir a relação entre varejo e consumidores: os agentes de inteligência artificial, que tendem a atuar como representantes dos próprios consumidores, pesquisando produtos, comparando preços, avaliando especificações e realizando compras de forma autônoma, conforme critérios previamente definidos.
Nesse cenário, as empresas não disputarão apenas a preferência das pessoas. Também precisarão conquistar a preferência dos algoritmos que decidirão por elas. É uma mudança silenciosa, mas profunda.
Em um futuro próximo, o consumidor continuará sendo o protagonista da decisão, mas muitas escolhas serão executadas por inteligências artificiais treinadas para buscar conveniência, preço, qualidade e confiança.
Quando isso acontecer, a vantagem competitiva não estará na tecnologia em si. Ela estará na capacidade das empresas de compreender melhor seus clientes, construir marcas relevantes e tomar decisões superiores. Até porque, quando todos tiverem acesso às mesmas ferramentas, continuará vencendo quem souber decidir melhor.
Maurício Mansur é fundador da IAMKT.




















