Thiago Terra, executivo de vendas e marketing da Grano Alimentos

O jogo que ninguém vê: quando as bets mudam os hábitos à mesa

Comer fora, enquanto experiência ou lazer, pode ser reduzida, adiada ou substituída quando o orçamento aperta e agora existe mais um fator disputando esse dinheiro

Autor: Thiago Terra

O setor de alimentos ganhou um concorrente improvável pelo bolso do consumidor: as bets.

O orçamento das famílias está cada vez mais disputado. Nas últimas décadas, internet, streaming, academia, roupas, cosméticos, serviços de beleza, mobilidade por aplicativos e uma série de outros gastos passaram a fazer parte da rotina. Ao mesmo tempo, juros e custo de vida pressionam o orçamento. Nesse cenário, cada nova despesa precisa encontrar espaço em uma renda que já tem muitos destinos.

É nesse contexto que as apostas on-line começam a chamar atenção. Não porque sejam um fenômeno novo, mas porque passaram a disputar recursos com categorias que fazem parte do consumo cotidiano. E, para quem acompanha de perto o setor de alimentação, essa mudança começa a aparecer nas conversas com varejo, distribuidores e equipes de trade, e, principalmente, nos dados sobre comportamento de consumo.

Dados da NielsenIQ mostram que os lares apostadores são mais comuns do que muitas vezes percebemos. Aproximadamente um em cada quatro lares tem algum apostador. Além da abrangência, o valor destinado às apostas ajuda a dimensionar essa disputa. Entre os lares apostadores, cerca de metade gasta entre R$ 30 e R$ 100 por mês com apostas. Em um país cujo salário mínimo é de R$ 1.621 em 2026, esse valor pode parecer pequeno quando analisado isoladamente, mas ganha outra dimensão quando colocado dentro de um orçamento que já precisa acomodar moradia, transporte, alimentação, contas básicas e uma série de novos gastos recorrentes. 

Toda escolha de consumo conta uma história sobre o que priorizamos. Quando o orçamento muda, mesmo que pouco, algumas decisões também acompanham: o que entra no carrinho, onde vale a pena economizar, quais categorias ganham espaço e quais passam a ser deixadas para depois. São movimentos silenciosos, mas que, somados, ajudam a desenhar novos hábitos.

E, para muitos brasileiros, a alimentação está no centro dessa equação. Por ser uma categoria que permite diferentes níveis de adaptação, ela costuma refletir rapidamente as mudanças no bolso. Os dados da NielsenIQ mostram justamente isso: a alimentação aparece no topo da lista de despesas que os consumidores repriorizam quando precisam reorganizar o orçamento. 

Isso não significa necessariamente deixar de comprar comida. Significa recalibrar. O consumidor troca marcas, busca preços menores, reduz determinadas compras, procura alternativas mais acessíveis ou simplesmente muda a frequência de consumo e o canal onde compra. Essa lógica também chega às escolhas relacionadas à alimentação saudável, que passam a ser avaliadas dentro do mesmo orçamento.

É nesse ponto que as bets deixam de ser apenas um fenômeno de entretenimento e passam a ser uma questão relevante para o setor de alimentos. Elas não precisam vender alimentos para competir com a indústria de alimentos. Basta disputar o mesmo bolso.

Essa disputa fica ainda mais evidente quando olhamos para a alimentação fora de casa. O food service já enfrenta, desde a pandemia, uma transformação importante no comportamento do consumidor. Comer fora, enquanto experiência ou lazer, pode ser reduzida, adiada ou substituída quando o orçamento aperta, e agora existe mais um fator disputando esse dinheiro.

O consumidor quer continuar consumindo, mas está mais atento ao desembolso. Preço e desembolso não são a mesma coisa. Para a indústria, o varejo e o food service, entender quanto o consumidor aceita gastar em cada ocasião passa a ser tão importante quanto definir o preço do produto. A questão é entender também o que ele está disposto a abrir mão para chegar a esse valor.

Essa mudança de comportamento já produz efeitos concretos no mercado. Tenho observado isso nas conversas com o setor: redes de alimentação ajustam porções e substituem proteínas de maior custo por alternativas mais acessíveis para reduzir o custo da operação e preservar o preço ao consumidor. No varejo, o movimento aparece de outras formas, como trade-down, embalagens menores, busca por menor desembolso, racionalização do carrinho e migração para canais mais competitivos.

Não por acaso, os dados da NielsenIQ apontam o atacarejo como um dos canais que ganham relevância quando o consumidor busca maior eficiência de preço. Entre os lares apostadores, o canal registra crescimento de 17% no número de shoppers, acima dos 15% observados entre os lares não apostadores. Além disso, esses consumidores apresentam um gasto por ocasião 5,3% maior no canal.

Mais do que uma mudança pontual no comportamento de compra, esse cenário coloca o setor diante de uma pressão maior sobre a forma como o consumidor percebe valor. A disputa deixa de acontecer apenas entre produtos e marcas e passa a envolver diferentes categorias, canais e ocasiões de consumo. Para a indústria de alimentos, isso exige entender onde o consumidor está disposto a manter seus gastos, onde fará concessões e quais atributos ainda justificam uma escolha.

As bets entram nessa mesma disputa. E não precisam vender alimentos para competir com a indústria de alimentos. Basta disputar o mesmo bolso.

Thiago Terra é executivo de vendas e marketing da Grano Alimentos.

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