Tamara Lorenzoni, mestre em Gestão de Marcas de Luxo pela Domus Academy Milano

O que o luxo inventou que o CX ainda não dominou

Os três elementos específico de: memória, antecipação e calibração são o que diferencia o clienteling de qualquer outro modelo de atendimento 

Autora: Tamara Lorenzoni

Existe uma ligação que nenhum script determina. É o que um consultor de uma grande maison faz, semanas antes de qualquer campanha de lançamento, para avisar que chegou uma peça que, por algum motivo, “parece ter sido pensada para você.” Não porque o sistema emitiu um alerta de reengajamento. Mas porque esse profissional recorda com detalhes o histórico, o gosto, a ocasião de vida e a linguagem de cada cliente. Essa distinção entre o que o CRM registra e o que o consultor conhece, define o território onde vive o clienteling.

O clienteling não é um programa de fidelidade com acúmulo de pontos. Não é um e-mail de aniversário. Não é sequer um CRM bem alimentado. É a prática estruturada de construir relações individuais que, ao longo do tempo, transformam o consultor em referência pessoal do cliente, e a marca, em presença sustentada na vida dessa pessoa.

A raiz histórica dessa prática não é acidental. Quando as primeiras maisons de luxo estabeleceram seus ateliês em Paris, toda a commerce de alto padrão funcionava por agendamento. O atendimento era, por definição, individual. Esse modelo, que poderia parecer anacrônico diante da digitalização, provou ser a forma mais sofisticada de gestão de relação com o cliente já concebida. A Chanel não tem uma política de “atendimento personalizado”. Tem consultoras que acompanham o mesmo cliente por décadas. A Hermès não tem um “gestor de conta VIP.” Tem um modelo que, intencionalmente, desacelera a transação para aprofundar a relação.

O resultado comercial dessa abordagem é documentado. Dados da Bain & Company indicam que menos de 0,1% da base de clientes de uma marca de luxo é responsável por 23% de todas as compras. O relatório Global Powers of Luxury da Deloitte, publicado no início de 2026, aponta que 28,6% dos executivos do setor citam a experiência do cliente e a fidelização como as principais oportunidades de crescimento do ano ( à frente de expansão geográfica e inovação de produto). Não são percepções qualitativas. São números que explicam por que a Moncler investiu em um sistema proprietário de clienteling chamado Monclient, descrito por analistas do setor como um dos ativos estratégicos mais relevantes da marca, e por que Hermès e Louis Vuitton seguem sendo referências de classe entre os analistas de relação com o cliente, independentemente de qualquer ciclo de mercado.

O que diferencia o clienteling de qualquer outro modelo de atendimento é a operação sobre três elementos específicos: memória, antecipação e calibração.

Memória não é dado histórico de compra. É o conjunto de informações contextuais, preferências estéticas, momentos de vida, referências culturais, que o consultor acumula e atualiza de forma contínua. Antecipação é a capacidade de agir antes que o cliente expresse uma necessidade. Não “responder com agilidade,” mas “identificar o momento certo.” E calibração é saber quando não comunicar. Quando silenciar. Quando uma mensagem seria invasiva e um gesto físico seria o caminho adequado.

Esses três elementos não residem em ferramentas. Residem em pessoas treinadas, e comprometidas com a relação como resultado de longo prazo, e não com a conversão como resultado imediato.

A questão para o profissional de CX de qualquer setor é esta: o que impede a transposição desse modelo para fora do luxo?

A resposta honesta é que a maioria das empresas investe em ferramentas e subinveste em relações. Um CRM sofisticado com campos mal preenchidos produz exatamente zero clienteling. Um consultor bem treinado, com autonomia para tomar decisões e com dados disponíveis, produz algo que nenhuma campanha de marketing substitui: a sensação, por parte do cliente, de ser genuinamente reconhecido.

Setores como saúde de alto padrão, serviços jurídicos, arquitetura, gestão patrimonial e hospitalidade premium já operam parcialmente com essa lógica, mas raramente de forma sistemática. O clienteling escala quando a empresa decide que a relação é o produto, e não o apêndice do produto.

Isso não exige que toda empresa se comporte como uma maison parisiense. Exige que defina, com clareza, quais clientes merecem ser conhecidos com profundidade, e que construa estrutura, cultura e autonomia para que os profissionais de linha de frente sustentem essa relação ao longo do tempo. A questão não é tecnológica. É de prioridade organizacional.

Jean-Noël Kapferer, cujos estudos sobre identidade de marcas de luxo são referência central no campo, observou que o que o consumidor compra no topo do mercado não é o produto, mas o pertencimento, e a continuidade desse pertencimento. Essa continuidade é exatamente o que o clienteling organiza: não a próxima transação, mas a próxima conversa.

A ligação descrita na abertura deste texto não é um gesto de gentileza. É o resultado de uma cadeia de decisões organizacionais, sobre quem se contrata, como se treina, o que se registra, o que se compartilha e, acima de tudo, o quanto se confia no profissional de linha de frente. Empresas que não têm resposta para “quem aqui conhece os nossos melhores clientes?” não enfrentam um problema de ferramenta. Enfrentam um problema de prioridade. E no clienteling, assim como na construção de marca, prioridade é o que separa o que se declara do que se pratica.

Tamara Lorenzoni é mestre em gestão de marcas de luxo pela Domus Academy Milano.

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