As empresas sabem, no papel, que deveriam decidir pensando no cliente, mas o que falha é a tradução disso em decisão concreta
Autor: Eric Garmes
Há uma imagem que se tornou quase folclore de gestão: Jeff Bezos, nos primeiros anos da Amazon, reservando uma cadeira vazia em suas reuniões de estratégia. Ninguém se senta nela. Ela representa o cliente. E, segundo a história mais contada sobre esse hábito, sempre que a discussão trava ou se perde em interesse interno, alguém pergunta: o que a pessoa sentada ali acharia disso?
Já ouvi essa história ser repetida em dezenas de palestras e artigos sobre cultura centrada no cliente, quase sempre como inspiração e raramente como prática. E é exatamente aí que quero levar essa reflexão para um lugar diferente. Não quero falar da cadeira vazia como metáfora de cultura organizacional, até porque sobre isso já escrevi antes. Quero falar dela como o que ela realmente deveria ser: um protocolo de decisão. Porque a pergunta que mais importa não é se sua empresa “acredita” no cliente como valor abstrato. É se o cliente está, literalmente, presente, com peso real e com voz que interfere no resultado, no momento exato em que uma decisão de negócio é tomada.
A cadeira vazia não é sobre sentimento, é sobre método
O que torna essa história diferente de um discurso institucional qualquer é que ela nunca foi apresentada como gesto simbólico isolado. Era, segundo quem descreve a prática, um controle de decisão: cada proposta discutida na sala deveria conseguir passar pelo teste de ser ouvida e sustentada diante daquela cadeira. Não é uma frase de efeito para abrir reunião. É um filtro aplicado à decisão em si, no momento em que ela está sendo tomada, não depois, quando já é tarde para mudar de rumo.
Essa distinção é o que separa empresas que “falam sobre centralidade no cliente” das que efetivamente decidem de forma diferente por causa dela. A maioria das organizações já superou a etapa de reconhecer, no discurso, que o cliente importa. O que a maioria ainda não resolveu é como transformar esse reconhecimento em um mecanismo concreto, presente em cada mesa de decisão, não em uma campanha de comunicação interna, não em um valor pintado na parede, mas em uma pergunta que literalmente muda o resultado de uma reunião.
Toda decisão sem essa cadeira tem um viés estrutural
Pense na composição típica de qualquer reunião estratégica relevante dentro de uma empresa. Diretor executivo, liderança de marketing, de finanças, de produto, alguém do comercial, talvez um analista com um relatório cheio de gráficos. É uma sala tecnicamente completa, do ponto de vista interno, e estruturalmente incompleta, porque todos ali representam algum interesse legítimo da organização, mas nenhum deles é, de fato, o cliente.
Isso não é falha de caráter de quem está na sala. É viés estrutural de composição. Cada área tende, de forma natural e nem sempre consciente, a otimizar a decisão para o critério que a avalia: marketing pensa em métrica de marca, finanças pensa em margem, produto pensa em roadmap técnico, comercial pensa em meta do trimestre. Todos esses critérios são legítimos. Nenhum deles é, sozinho, o critério do cliente. Sem uma representação deliberada desse ponto de vista dentro da sala, a decisão tende a refletir a soma dos interesses internos presentes, não porque alguém decidiu ignorar o cliente, mas porque literalmente ninguém, naquele momento específico, estava encarregado de defendê-lo.
O dado mostra exatamente essa lacuna no mercado brasileiro
Já escrevi antes sobre o Índice de Centralidade no Cliente das Empresas no Brasil, da ClienteSA em parceria com a ESPM, mas há um detalhe desse estudo que se conecta diretamente ao argumento da cadeira vazia, e que vale reforçar aqui sob esse ângulo específico: o índice mostrou recuo puxado justamente pela distância entre a elevada avaliação das empresas em estratégia e a queda na capacidade de execução e agilidade operacional. Traduzindo para a linguagem desta reflexão: as empresas sabem, no papel, que deveriam decidir pensando no cliente. O que falha é a tradução disso em decisão concreta, tomada em tempo real, dentro da sala onde a estratégia realmente se decide.
Essa lacuna entre discurso estratégico e execução real é exatamente o espaço que uma cadeira vazia deveria ocupar. Ela não resolve o problema de a empresa não ter estratégia voltada ao cliente. Resolve o problema, mais comum e mais silencioso, de a empresa ter uma boa estratégia no papel e uma prática de decisão que a ignora sistematicamente, reunião após reunião, porque não existe nenhum mecanismo formal que force essa presença.
Colocar alguém na cadeira, não apenas deixá-la vazia
O ponto que considero mais relevante é o que vem depois dela, na prática de empresas que levaram esse princípio a sério: a cadeira vazia funciona melhor quando deixa de ser apenas simbólica e passa a ser preenchida, literalmente, por informação real do cliente. Isso significa levar para dentro da sala de decisão dado de atendimento, gravação de reclamação, resultado de pesquisa qualitativa, ou mesmo a presença física de alguém de um time de linha de frente ou de pesquisa de experiência, cujo papel explícito naquela reunião é representar a perspectiva de quem não está ali para se defender sozinho.
Isso é bem diferente de apresentar um slide de NPS no início da reunião e seguir para a pauta “real” logo depois. É trazer a voz do cliente para dentro da deliberação em si, no momento em que a decisão está sendo formada, não como pano de fundo estatístico já digerido antes da conversa importante começar.
Por que isso é decisão, e não cultura
A razão pela qual insisto nessa distinção é que cultura, tratada de forma abstrata, é fácil de declarar e difícil de auditar. Decisão, por outro lado, é auditável: ou o cliente influenciou aquela escolha específica, de forma verificável, ou não influenciou. Uma empresa pode ter uma cultura declarada de centralidade no cliente e, ainda assim, tomar decisão após decisão sem que exista, em nenhum momento do processo, um mecanismo concreto que force essa presença.
É por isso que trato a cadeira vazia, neste texto, como prática de tomada de decisão, não como metáfora de valores corporativos. A pergunta que um líder deveria fazer não é “nossa cultura valoriza o cliente?”, pergunta que qualquer empresa responde “sim” sem hesitar. A pergunta é: na última decisão estratégica relevante que tomamos, existiu alguém, ou algum dado, representando formalmente a perspectiva do cliente dentro daquela sala, e essa perspectiva teve poder real de mudar o resultado, ou apenas foi mencionada de passagem antes de a decisão seguir o caminho que os interesses internos já haviam definido?
O teste prático para qualquer liderança
Se há um exercício concreto que decorre dessa reflexão, é este: antes da próxima decisão estratégica relevante da sua empresa, pergunte quem, literalmente, vai representar o cliente naquela sala, não como conceito, mas como presença com poder de interferir no resultado. Se a resposta for “ninguém, mas todos nós pensamos no cliente”, essa resposta já revela o problema. Pensar no cliente, de forma difusa e não estruturada, é exatamente o tipo de intenção que se dissolve diante da pressão de prazo e de interesse interno.
A cadeira vazia, entendida como prática e não como símbolo, é uma forma simples e replicável de resolver essa assimetria: garantir que, no momento exato da decisão, exista alguém ou algum dado com a função explícita de fazer a pergunta que ninguém mais na sala é remunerado para fazer. Não é sobre gentileza com o cliente. É sobre corrigir, de forma deliberada, um viés estrutural que toda sala de decisão interna carrega por padrão e que só deixa de existir quando alguém decide, conscientemente, ocupar aquele lugar vazio.
Eric Garmes é CEO da Paschoalotto.




















