Reduzir investimentos de forma linear pode aliviar a pressão no presente, mas também limita as alternativas para o futuro
Autora: Ana Paula Debiazi
Em um cenário de juros elevados e maior cautela, empresas precisam tratar a inovação como instrumento de resiliência, diversificação e permanência no mercado, não como um gasto dispensável.
O dilema é real: preservar a caixa hoje ou investir em algo cujo retorno pode levar mais tempo e não está garantido? A resposta não está em ignorar o risco, mas em aprender a inovar com foco, método e disciplina.
O momento econômico brasileiro exige atenção redobrada das empresas. Embora a atividade econômica tenha iniciado 2026 em crescimento, o ambiente continua marcado por juros altos, inflação ainda pressionada e incertezas internas e externas. Em junho, a taxa Selic foi reduzida para 14,25% ao ano, permanecendo em um patamar que encarece o crédito e eleva o custo de oportunidade dos investimentos. Nesse contexto, é natural que muitas organizações adotem uma postura mais conservadora, priorizando liquidez, eficiência operacional e projetos com retorno rápido.
É justamente nesse movimento que a inovação costuma perder espaço. Como seus resultados nem sempre aparecem no curto prazo e envolvem hipóteses, testes e possibilidade de erro, projetos inovadores são frequentemente tratados como despesas adiáveis. A decisão parece prudente quando analisada apenas pelo caixa imediato. No entanto, pode se transformar em um risco maior quando observada sob a perspectiva da competitividade e da sobrevivência do negócio.
Os dados reforçam esse alerta. A PINTEC Semestral, do IBGE, mostrou que a taxa de inovação das empresas industriais brasileiras com 100 ou mais pessoas ocupadas caiu pelo terceiro ano consecutivo e chegou a 64,4% em 2024, o menor resultado da série iniciada em 2021. O dado não significa ausência de capacidade inovadora, mas sinaliza que uma parcela relevante das empresas vem encontrando dificuldades para transformar conhecimento, tecnologia e oportunidades em novos produtos ou processos.
Reduzir investimentos de forma linear pode aliviar a pressão no presente, mas também limita as alternativas para o futuro. Empresas que deixam de experimentar novos modelos, canais, produtos e parcerias ficam mais dependentes de suas fontes atuais de receita. Ao mesmo tempo, tornam-se mais vulneráveis às mudanças no comportamento do consumidor, à entrada de novos concorrentes e ao avanço acelerado de tecnologias que redesenham mercados inteiros.
Inovar não significa, necessariamente, realizar grandes apostas ou manter estruturas caras. Em períodos de restrição, a inovação precisa ser ainda mais conectada à estratégia. Isso passa por identificar problemas relevantes do negócio, estabelecer critérios claros de priorização e criar ciclos menores de teste. Um projeto-piloto bem definido permite validar uma solução com investimento controlado antes de ampliar sua escala. Se a hipótese não se comprovar, o aprendizado acontece cedo e com custo limitado; se funcionar, a empresa passa a decidir com evidências.
Também é possível compartilhar riscos. Parcerias com startups, universidades, centros de pesquisa, fornecedores e clientes reduzem o tempo de desenvolvimento e dão acesso a competências que nem sempre existem dentro da organização. A inovação aberta é especialmente importante nesse cenário porque possibilita experimentar antes de escalar e combina a agilidade de atores externos com o conhecimento de mercado da empresa.
Outro ponto essencial é rever a forma de medir o retorno. O ROI financeiro continua sendo indispensável, mas não deve ser o único indicador. Em fases iniciais, é preciso acompanhar sinais como redução de custos, ganho de produtividade, velocidade de aprendizado, adesão de clientes, criação de novas capacidades e potencial de geração de receita. Cobrar de uma iniciativa experimental a mesma previsibilidade de uma operação consolidada pode levar ao abandono prematuro de projetos promissores.
Isso não significa defender investimentos sem critério. Pelo contrário: quanto mais desafiador o cenário, maior deve ser a governança. A empresa precisa trabalhar com um portfólio equilibrado, combinando melhorias de curto prazo com iniciativas que preparem novas fontes de crescimento. Deve definir responsáveis, limites de investimento, etapas de decisão e critérios para avançar, ajustar ou interromper cada projeto. Inovar com disciplina é diferente de apostar sem direção.
O atual ambiente econômico pode levar as empresas a adiar decisões, mas o mercado não fica parado enquanto elas esperam. Concorrentes mais preparados continuam testando soluções, construindo capacidades e ocupando espaços. Por isso, a pergunta não deve ser apenas quanto custa inovar neste momento. Também é necessário avaliar quanto pode custar permanecer igual.
Em tempos de incerteza, a inovação deixa de ser somente uma agenda de crescimento e passa a ser uma estratégia de resiliência. É ela que permite diversificar receitas, responder às mudanças com mais agilidade e manter a empresa relevante. O desafio não é escolher entre preservar o negócio e inovar, mas entender como a inovação pode ajudar a preservar o negócio, agora e no futuro.
Ana Paula Debiazi é CEO da Leonora Ventures.




















