Guilherme Feldman, CEO da BD

Além do ingresso: quando a venda passa a ser o começo do relacionamento

O ingresso tem uma data definida, mas o vínculo construído a partir daquela experiência pode continuar muito depois dela

Autor: Guilherme Feldman

Durante muito tempo, boa parte das estratégias comerciais foi construída em torno de uma pergunta simples: como converter? A resposta costuma orientar investimento em mídia, tecnologia, canais e atendimento. O problema aparece quando a conversão também passa a ser tratada como o ponto final da relação. No entretenimento, essa lógica merece ser revista.

Mais do que representar uma venda, o ingresso também funciona como um sinal de interesse. Quando alguém escolhe um evento, um artista, uma experiência ou um produtor, está revelando uma afinidade. A partir daquela decisão, existe uma oportunidade de entender melhor esse público e construir uma relação que não termine quando a experiência termina.

Essa perspectiva permite olhar para cada venda como parte de um conjunto mais amplo de interações, que começa antes da transação, acompanha a experiência e pode se estender muito além dela. 

A compra como ponto de partida

No mercado de eventos, a transação tem características particulares. Existe uma data definida, uma capacidade limitada e, muitas vezes, uma decisão de compra associada a um momento específico. Ainda assim, a relação com o público começa muito antes da venda e percorre diferentes etapas da jornada.

Ela passa pela descoberta do evento, pela expectativa, pela compra, pela experiência e pelo que acontece depois. Uma pessoa pode compartilhar aquele momento, recomendar para alguém, acompanhar uma próxima programação ou voltar a comprar meses depois. Nesse percurso, a própria compra oferece sinais importantes sobre comportamentos, interesses, afinidades e escolhas que, quando organizados e utilizados de forma responsável, podem contribuir para tornar as próximas interações mais relevantes.

O desafio está em transformar esse conhecimento em relacionamento sem aumentar indiscriminadamente a quantidade de contatos. Conhecer melhor o cliente deve servir para criar motivos mais relevantes para conversar com ele, e não simplesmente para falar com maior frequência.

Ela ajuda a revelar interesses, afinidades e escolhas que, quando organizados e utilizados de forma responsável, podem contribuir para tornar as próximas interações mais relevantes. 

Essa lógica vale para diferentes setores. Uma empresa que conhece melhor seus clientes pode criar experiências mais coerentes com aquilo que eles já demonstraram valorizar. No entretenimento, essa possibilidade ganha contornos especialmente claros porque as escolhas de eventos, artistas e experiências também carregam uma forte dimensão de afinidade e identificação. 

Uma pesquisa da Eventbrite, publicada em 2026, ajuda a dimensionar esse comportamento entre consumidores mais jovens. O estudo, realizado com 4.051 pessoas entre 18 e 35 anos nos Estados Unidos e no Reino Unido, mostrou que 69% recorrem a redes pessoais e indicações para descobrir experiências, enquanto 89% buscam eventos que os aproximem de suas comunidades.

Os dados reforçam que descoberta, participação e recomendação fazem parte de uma mesma dinâmica, na qual as relações entre pessoas influenciam tanto a escolha de uma experiência quanto aquilo que acontece depois dela. 

Da audiência pontual à recorrência

É nesse contexto que a fidelização precisa ser observada por uma lente mais ampla, considerando que voltar a comprar continua sendo um indicador importante, mas a recorrência começa a ser construída antes da próxima transação. 

Ela passa pela capacidade de permanecer relevante entre uma experiência e outra, compreender afinidades e criar motivos para que aquela pessoa continue próxima de um artista, produtor, espaço ou marca.

No entretenimento, o pós-evento oferece diversas possibilidades. Conteúdo da experiência, bastidores, pesquisas, informações antecipadas e convites alinhados ao histórico de cada pessoa podem prolongar o vínculo muito além das horas em que o evento aconteceu. Esse contato, porém, ganha valor quando está conectado ao interesse do público, e não quando cada interação é tratada como uma nova oportunidade de venda.

Nesse sentido, cada experiência também produz aprendizado, que pode ser utilizado para compreender melhor a audiência e tornar a próxima interação mais pertinente.

Dados também exigem responsabilidade

Para que essa estratégia funcione ao longo do tempo, existe um elemento indispensável: a confiança. Quanto maior a capacidade de conhecer preferências e comportamentos, maior também é a responsabilidade sobre a forma como essas informações são utilizadas. 

Quando o consumidor entende por que determinada comunicação chegou até ele e percebe relevância naquele contato, os dados ajudam a aproximar a marca de seu público. Quando essa conexão não existe, as mesmas informações podem produzir o efeito contrário, transformando uma tentativa de personalização em uma comunicação invasiva ou simplesmente irrelevante. 

Por isso, construir relacionamento não significa acumular o máximo possível de informações sobre alguém. O valor está na capacidade de transformar o conhecimento disponível em interações que façam sentido para aquela pessoa e contribuam para sua experiência. 

O indicador de sucesso também precisa evoluir

Se a relação se estende para além da transação, as formas de mensurá-la também precisam acompanhar essa mudança. Além de perguntar quantas pessoas compraram, passa a ser importante entender quantas retornam, recomendam, acompanham novas programações, interagem espontaneamente e mantêm uma relação recorrente com aquela marca ou experiência.

Enquanto a conversão revela o resultado de determinado momento, esses comportamentos ajudam a compreender a qualidade da relação construída ao longo do tempo.

No setor de eventos, isso fica especialmente evidente. Uma pessoa pode começar como compradora de um ingresso e, com o tempo, se tornar alguém que acompanha uma programação, recomenda experiências, leva outras pessoas e volta a participar.

Isso não significa que todo comprador precise se transformar em membro de uma comunidade, mas existe valor em compreender quais experiências criam vínculos mais duradouros e quais fatores estimulam uma pessoa a escolher voltar. É justamente nessa análise que dados, experiência e relacionamento começam a se encontrar. 

O ingresso é só uma parte da história

Na Bilheteria Digital, convivemos diariamente com essa dinâmica. A tecnologia está presente em um momento decisivo da jornada, que é a compra, enquanto a relação entre público, produtor e experiência se desenvolve em um espaço muito mais amplo do que a própria transação.

Cada ingresso vendido representa uma decisão de consumo e pode contribuir para formar um histórico de interesses, comportamentos e afinidades que, quando utilizado de forma responsável, ajuda a construir experiências mais relevantes no futuro.

Esse olhar também amplia o papel de uma plataforma de ticketing, que pode contribuir tanto para facilitar a venda quanto para ajudar produtores a compreender melhor suas audiências e criar condições para que uma experiência gere novas oportunidades de relacionamento.

O ingresso tem uma data definida, mas o vínculo construído a partir daquela experiência pode continuar muito depois dela. Para empresas que desejam aumentar a recorrência e aprofundar o relacionamento com seus públicos, é justamente esse período entre uma transação e outra que merece cada vez mais atenção.

Guilherme Feldman é CEO da Bilheteria Digital.

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