Ana Dividino, vice-presidente de negócios da Softtek Brasil

Volume de acessos via IA para varejo cresce 4700%

Estudo global da Softtek mostra avanço do comércio agêntico e aponta que produtos precisarão ser “entendidos” por algoritmos para entrar na jornada de compra

A próxima disputa do varejo pode não acontecer na página de resultados do Google, no marketplace ou mesmo dentro da loja virtual. Ela pode acontecer antes disso, quando um agente de inteligência artificial decide quais produtos serão apresentados ao consumidor. Estudo global divulgado pela Softtek, multinacional de engenharia de software, mostra a velocidade dessa mudança: o tráfego direcionado por assistentes de IA para sites de varejo cresceu 4700% em apenas um ano. E os consumidores que chegam por esse canal apresentam comportamento diferente do tráfego tradicional: permanecem 32% mais tempo nas páginas, visualizam 10% mais conteúdo e registram uma taxa de rejeição 27% menor.

Os números indicam que a IA já começa a atuar não apenas como ferramenta de pesquisa, mas como uma nova porta de entrada para o comércio digital. O movimento coloca em xeque um modelo construído durante décadas em torno de vitrines digitais, mecanismos de busca, publicidade e disputa por cliques.

O consumidor começa a delegar a pesquisa

A mudança também aparece no comportamento dos compradores. Segundo o levantamento, 38% dos consumidores norte-americanos já utilizaram IA generativa para compras on-line. Na Europa, 84% dos consumidores usam ferramentas de IA em suas rotinas diárias, e 38% deste grupo já recorre à tecnologia para pesquisar produtos ou tomar decisões de compra.

Entre os principais usos estão a busca por produtos (53%), as recomendações personalizadas (40%) e a identificação de ofertas e descontos (36%).

A lógica é diferente daquela do e-commerce tradicional. Em vez de o consumidor navegar por dezenas de páginas, comparar produtos e decidir qual oferta parece mais adequada, parte desse trabalho passa a ser delegada a um agente.

Para o varejista, isso cria uma nova pergunta: como fazer com que um algoritmo escolha sua marca antes mesmo de o consumidor chegar à sua loja digital?

“Estamos testemunhando a transição de um e-commerce baseado em vitrines humanas para ecossistemas de decisão algorítmica. O consumidor continua no centro, mas começa a delegar a carga cognitiva da pesquisa, da comparação e do filtro inicial para assistentes de IA”, afirma Ana Dividino, vice-presidente de negócios da Softtek Brasil.

Segundo a executiva, essa mudança altera o conceito de presença digital. “Ser encontrado pelo consumidor não é mais suficiente. A oferta precisa ser compreendida pela máquina. Se preço, estoque, atributos, condições comerciais ou políticas de entrega não estiverem estruturados de forma que um agente consiga interpretar e comparar, o produto pode simplesmente deixar de aparecer entre as opções consideradas.”

De SEO para a elegibilidade algorítmica

A ascensão dos agentes também começa a mudar a lógica de visibilidade digital. Durante anos, as empresas investiram em SEO (Search Engine Optimization) para melhorar seu posicionamento nos mecanismos de busca e aumentar o tráfego para seus canais.

No comércio agêntico, a disputa ganha uma nova camada. Entram em cena conceitos como GEO (Generative Engine Optimization) e ACO (Agentic Commerce Optimization), associados à capacidade de uma marca e de seus produtos serem corretamente interpretados por sistemas de IA.

O critério deixa de ser apenas “aparecer bem ranqueado” e passa a incluir uma espécie de elegibilidade algorítmica: o produto tem informações suficientemente estruturadas para que um agente consiga entender o que ele oferece, avaliar seu preço, verificar disponibilidade, comparar alternativas e considerar condições de entrega e pós-venda?

Isso exige uma mudança que vai além do marketing. Dados de catálogo, preço, estoque, promoções, logística e políticas comerciais precisam estar atualizados, estruturados e conectados para que possam ser consumidos por máquinas em tempo real.

Autonomia esbarra na confiança

A velocidade de adoção, porém, não significa que o consumidor esteja disposto a entregar toda a jornada de compra para uma IA.

O estudo mostra que 73% dos consumidores estão dispostos a delegar a descoberta de produtos a um agente de IA. A disposição diminui conforme a tecnologia se aproxima da etapa de transação financeira, indicando que a autonomia deve avançar na mesma velocidade da confiança.

Privacidade e segurança aparecem entre os principais fatores para essa adesão. Cerca de 85% dos compradores consideram importante manter visibilidade e controle sobre como seus dados são coletados e utilizados. Segurança dos dados (50%), privacidade (44%) e precisão das transações (42%) estão entre as principais preocupações dos consumidores diante da automação.

Para o varejo, isso significa que a estratégia de comércio agêntico não pode ser construída apenas sobre novos canais de venda. É necessário criar uma infraestrutura capaz de conectar dados, sistemas e processos, mantendo controle sobre as decisões automatizadas.

“Esse cenário exige que varejistas e fabricantes passem de um planejamento comercial estático para uma lógica de decisão contínua. Preço, estoque, logística, promoções e retail media precisam conversar entre si e estar disponíveis para uma camada de inteligência que consiga reagir em tempo real”, explicou Ana.

A executiva acrescenta que a questão central não é simplesmente adotar IA. “A vantagem competitiva estará na capacidade de orquestrar essa complexidade com velocidade, qualidade de dados e governança. No comércio agêntico, quem não conseguir alimentar os algoritmos com informações confiáveis corre o risco de perder relevância antes mesmo de disputar o clique do consumidor.”

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