Recorte setorial de pesquisa desenvolvida pela S2 Consultoria, mostra que profissionais da área convivem com dilemas ligados à manipulação de indicadores, vazamento de informações e normalização da sobrecarga
O primeiro recorte setorial do “Atlas PIR”, estudo desenvolvido pela S2 Consultoria para mapear os principais riscos comportamentais e éticos presentes nas organizações, mostra que profissionais da comunicação registraram Índice de Prontidão para Integridade e Resiliência (PIR) de 7,02, acima da média nacional de 6,75.
Apesar do resultado indicar uma boa capacidade de resistência a desvios éticos, o estudo também mostra que os principais riscos da área não estão relacionados a fraudes evidentes, mas à racionalização de pequenos ajustes em informações, indicadores e narrativas, motivados pela pressão por resultados, velocidade e reputação.
De acordo com a pesquisa, a comunicação possui características que tornam seus dilemas diferentes dos observados em outros segmentos. Como a atividade depende da gestão de informações, relacionamento com clientes, construção de reputação e tomada de decisões em alta velocidade, o ambiente favorece situações em que alterações podem ser justificadas como “adequação da mensagem”, “proteção da imagem” ou “necessidade comercial”, reduzindo a percepção de risco dos profissionais.
“O estudo mostra que o desafio da comunicação não é a falta de ética dos profissionais. O problema aparece quando a pressão por proteger reputações, atender clientes e cumprir prazos cria um ambiente em que pequenos ajustes passam a parecer decisões naturais. O risco nasce justamente quando a narrativa começa a justificar comportamentos que antes seriam claramente questionados”, comentou Alessandra Costa, psicóloga e sócia da S2.
O levantamento identifica que o nível tático, formado por coordenadores, gerentes e especialistas, concentra o maior bolsão de risco comportamental do setor. É nesse nível que dados são consolidados, relatórios são produzidos e decisões passam pela construção da narrativa que será apresentada a clientes, lideranças e mercado. A pesquisa aponta que a racionalização costuma aparecer em justificativas como “é só melhorar a leitura”, “o cliente precisa entender assim”, “não estamos mentindo, apenas organizando” ou “todo mundo faz esse ajuste”.
O principal dilema identificado é o das demonstrações fraudulentas, que reúne 21,9% de baixa resiliência ética no nível tático. Nesse cenário, o conflito envolve registrar fielmente os resultados ou adaptar indicadores para preservar contratos, reputação ou metas. Segundo a pesquisa, o problema nem sempre envolve fabricar dados, mas suavizar informações, destacar apenas aspectos positivos ou reorganizar números para produzir uma percepção mais favorável.
Na segunda posição aparece o risco de vazamento de informações, com 15,2% de baixa resiliência. O “Atlas PIR” mostra que, em um ambiente altamente colaborativo, a circulação intensa de dados entre clientes, fornecedores e equipes pode levar à informalização do sigilo, fazendo com que o compartilhamento de informações sensíveis seja interpretado apenas como uma forma de agilizar entregas.
O terceiro principal dilema envolve presentes e favorecimentos, identificado em 11,7% dos profissionais do nível tático. Como relacionamento é um dos principais ativos do setor, o estudo alerta que proximidade com clientes e parceiros pode reduzir a independência das decisões e aumentar conflitos de interesse. Em seguida aparecem a manipulação de resultados, com 11,6%, e o próprio conflito de interesses, que alcança 11,5% no nível estratégico.
Outro ponto de atenção identificado pelo “Atlas PIR” é a pressão cotidiana vivida pelas equipes de comunicação. O estudo mostra que prazos curtos, mudanças constantes de prioridade, necessidade de disponibilidade permanente e múltiplas demandas simultâneas favorecem exaustão emocional, reduzem a capacidade de contestação e aumentam a tolerância a comportamentos abusivos. Expressões como “comunicação é pressão mesmo”, “cliente não espera” e “quem quer crescer precisa aguentar” aparecem como formas recorrentes de racionalizar situações de sobrecarga.
Para reduzir esses e os demais riscos, a pesquisa recomenda intervenções específicas para cada nível hierárquico. Entre elas estão a criação de critérios objetivos para reporte de indicadores, revisão cruzada de relatórios críticos, comitês preventivos para decisões reputacionais, treinamentos voltados para decisões sob pressão e mecanismos simples para proteger informações sensíveis e combater a sobrecarga das equipes.
“O dado mais preocupante é que muitos desses comportamentos deixam de ser percebidos como exceções e passam a integrar a cultura da operação. Quando editar um indicador parece apenas melhorar uma apresentação, ou quando trabalhar sob sofrimento permanente passa a ser interpretado como sinal de excelência, a organização já está convivendo com fatores importantes de risco ético”, finalizou Alessandra.
Metodologia
O “Atlas PIR” reúne dados de mais de 48 mil profissionais de 449 organizações, distribuídas em 13 setores econômicos, e foi lançado oficialmente durante o congresso Behavioral Science Lab (BEL), da FEA/USP, em maio deste ano. Agora, a S2 Consultoria inicia a divulgação de análises setoriais, que aprofundam os dilemas éticos e comportamentais de segmentos específicos. O setor de comunicação é o primeiro recorte apresentado.




















