Mais do que definir o que uma marca quer dizer, é preciso garantir consistência na forma como ela se comunica
Autor: Flavio Garcia
A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa para o futuro do relacionamento entre empresas e clientes. Ela está presente nos canais de atendimento, na análise de dados, nas recomendações, na produção de conteúdo e em diferentes etapas da jornada de consumo.
O avanço é rápido. Mas, para as empresas, a questão mais importante neste momento não é quanto de IA incorporar aos negócios, e, sim, como transformar essa tecnologia em experiências mais relevantes para as pessoas.
Uma pesquisa recente da Pluxee mostra que essa mudança já está acontecendo nas organizações. No Brasil, 81% dos trabalhadores já utilizam ou demonstram interesse em utilizar inteligência artificial no trabalho. Mais do que uma ferramenta para automatizar tarefas, a IA já é usada por 61% para gerar ideias e estimular a criatividade e por 58% para executar tarefas complexas.
Esses dados ajudam a mudar o rumo da discussão. A IA não está apenas fazendo mais rápido aquilo que as pessoas já faziam. Ela começa a fazer parte de etapas que envolvem criação, análise e resolução de problemas. E isso já impacta na forma como as empresas constroem suas relações com clientes.
O desafio não é automatizar. É saber o que automatizar
A primeira onda da transformação digital foi marcada pela migração de processos para canais digitais. A partir daí, vieram a automação e a integração de dados. Agora, a partir da inteligência artificial surge a capacidade de interpretar informações, gerar respostas e apoiar decisões em uma velocidade inédita. O risco, portanto, não está apenas em automatizar demais, mas em reduzir a IA a uma ferramenta de automação.
Quando o assunto é experiência do cliente, nem toda etapa da jornada precisa ser mais automatizada. Algumas precisam ser mais simples. Outras, mais rápidas. Algumas podem ser totalmente digitais; outras ganham valor justamente quando existe uma pessoa envolvida. A maturidade, nesse cenário, está em entender onde a tecnologia efetivamente gera valor à jornada.
Um chatbot pode resolver em segundos uma solicitação objetiva que antes exigia vários minutos de atendimento. Uma ferramenta de IA pode identificar padrões de comportamento e antecipar uma necessidade. Algoritmos podem ajudar a organizar informações e oferecer recomendações mais relevantes.
Mas, em situações de maior complexidade, insistir na automação pode produzir o efeito contrário: aumentar o esforço do cliente em vez de reduzi-lo e piorar a experiência. A tecnologia precisa ser desenhada a partir da jornada, e não a jornada adaptada à tecnologia.
Personalização não é apenas conhecer o cliente
O aumento do uso da IA também muda a discussão sobre personalização. Com mais capacidade de processamento, as empresas conseguem cruzar comportamentos, preferências e diferentes momentos da jornada com uma velocidade que antes seria quase impossível alcançar.
Mas personalizar uma comunicação não é o mesmo que entender uma pessoa a fundo. Uma recomendação pode ser baseada em dados e, ainda assim, não fazer sentido para aquele cliente naquele momento. O desafio passa a ser transformar informação em contexto – e contexto em uma experiência que realmente faça sentido e gere conexão com o consumidor.
Comunicação ganha uma nova responsabilidade
Essa transformação também muda o papel da Comunicação. Quando mensagens podem ser produzidas e distribuídas em escala, o desafio deixa de ser apenas gerar conteúdo e passa a ser garantir coerência e propósito em todos os pontos de contato.
Para o cliente, uma campanha, um chatbot, um e-mail automatizado ou uma interação com um atendente fazem parte da mesma experiência. Por isso, mais do que definir o que uma marca quer dizer, é preciso garantir consistência na forma como ela se comunica. A inteligência artificial amplia essa capacidade de forma positiva e de forma negativa. Se o processo for ruim, a tecnologia maximiza o problema. Se for bom, escala a experiência.
Da adoção à experiência
A percepção dos próprios trabalhadores reforça que não estamos diante de uma transformação que as pessoas necessariamente rejeitam. Na pesquisa da Pluxee, 88% dos brasileiros afirmam que a inteligência artificial está promovendo mudanças positivas no ambiente de trabalho.
Por isso, a prioridade das empresas não deve ser frear esse movimento, mas direcioná-lo. Significa entender que a tecnologia vai além da eficiência operacional. Ela pode contribuir para jornadas mais simples, interações mais relevantes e relações mais consistentes. Também significa reconhecer que cada novo ponto de contato que interage com a IA passa a fazer parte da experiência que o cliente constrói com uma marca.
No fim, a transformação não estará limitada à tecnologia que conseguimos incorporar, mas na qualidade das relações que construímos a partir dela. O próximo passo da experiência será usar a inteligência artificial não apenas para fazer mais, mas para comunicar melhor, gerar valor e construir relações de valor.
Flavio Garcia é gerente de comunicação da Pluxee Brasil.




















