Tatiana Sanches, vice-presidente de Sales Management da Fico

O crédito não entende as férias

O aumento do consumo em julho expõe um desafio maior para as instituições financeiras: interpretar contexto sem transformar mudanças legítimas de comportamento em risco ou fricção

Autora: Tatiana Sanches

Há momentos em que o sistema financeiro parece estar um passo atrás do comportamento real das pessoas. Julho é um deles. As férias reorganizam o consumo. Famílias viajam, gastos se concentram em poucos dias e categorias pouco frequentes passam a fazer parte da rotina. Hospedagem, restaurantes, transporte e entretenimento podem transformar, por algumas semanas, o comportamento financeiro de um consumidor. O cliente não mudou. O contexto, sim. E cada vez mais a qualidade da decisão depende dessa diferença.

Essa distinção está no centro de um dos principais desafios das instituições financeiras: como reconhecer uma mudança legítima de comportamento sem interpretá-la automaticamente como deterioração de risco ou sinal de fraude?

Durante décadas, o setor aperfeiçoou sua capacidade de identificar desvios. Modelos de risco, sistemas de prevenção a fraudes e políticas de crédito tornaram-se cada vez mais sofisticados na identificação de comportamentos fora do padrão. Mas nem todo desvio é risco. Um consumidor que concentra gastos durante uma viagem pode estar agindo de forma perfeitamente racional. Ainda assim, se cada decisão considerar isoladamente uma transação incomum, uma nova localização ou um aumento repentino de gastos, o sistema pode chegar à conclusão errada.

O resultado é conhecido por quem já tentou pagar um hotel ou um passeio durante uma viagem e teve a transação bloqueada. Em poucos segundos, o cliente resolve o problema da forma mais simples possível: troca de cartão. Parece um gesto pequeno, mas para a instituição financeira, pode não ser.

Pesquisas da FICO mostram que segurança está entre os fatores mais relevantes na escolha de uma instituição financeira pelos consumidores brasileiros. Ao mesmo tempo, existe baixa tolerância a fricções mal calibradas. Segundo a Consumer Survey da FICO, 31% dos consumidores afirmam já ter reduzido ou deixado de usar um cartão após experiências negativas relacionadas a checagens de segurança. A discussão, portanto, vai além de fraude ou crédito. Ela toca diretamente em lealdade.

Em um ambiente em que o consumidor possui múltiplos cartões, contas e alternativas de pagamento, mudar o instrumento usado em uma transação leva segundos. Cada decisão desnecessariamente restritiva ensina o cliente a usar outra opção.

Por isso, a próxima fronteira do setor financeiro não está simplesmente em adicionar mais dados ou desenvolver mais um modelo. Está na capacidade de interpretar contexto e orquestrar decisões. Uma instituição pode ter excelentes modelos de fraude, crédito e propensão, além de dados em tempo real e informações provenientes do ecossistema de Open Finance. Mas, se essas capacidades operam de forma fragmentada, cada sistema continua enxergando apenas uma parte do cliente. O problema deixa de ser falta de inteligência analítica. Passa a ser falta de coordenação entre inteligências.

Durante uma viagem, um sistema pode identificar aumento abrupto de gastos. Outro, uma localização incomum. Um terceiro pode reconhecer capacidade financeira compatível com aquele consumo, enquanto o histórico recente indica compra de passagens ou reservas de hospedagem. Individualmente, cada sinal conta uma história incompleta. A decisão melhora quando esses sinais são interpretados em conjunto, dentro do contexto da jornada do consumidor e dos objetivos da instituição.

Esse desafio tende a crescer com o avanço da inteligência artificial. À medida que diferentes modelos e agentes de IA passam a atuar nas instituições financeiras, um pode buscar reduzir fraude, outro ampliar engajamento e um terceiro otimizar rentabilidade ou identificar oportunidades de crédito. Todos podem estar corretos dentro de seus próprios objetivos. Mas a soma de decisões individualmente otimizadas não garante a melhor decisão para o cliente ou para a instituição. Sem coordenação, corremos o risco de criar uma nova geração de silos: mais rápidos, mais sofisticados e potencialmente mais difíceis de governar.

Por isso, a discussão sobre IA no setor financeiro não deveria se limitar à capacidade dos modelos. A questão central será como diferentes modelos, agentes, políticas e objetivos de negócio serão orquestrados para produzir decisões consistentes, explicáveis e alinhadas à estratégia da instituição e compliance regulatório.

É também aqui que a hiperpersonalização ganha um significado mais concreto. Não se trata de aumentar a quantidade de ofertas ou mensagens direcionadas ao consumidor. Trata-se de tomar decisões diferentes quando o contexto exige decisões diferentes.

Julho funciona como um teste particularmente visível dessa capacidade. Durante algumas semanas, milhões de consumidores alteram simultaneamente seus padrões de consumo. Os modelos continuam recebendo sinais e os sistemas continuam tomando decisões. Em última análise, julho não testa apenas os modelos. Testa a capacidade das instituições de compreender o contexto antes de reagir ao comportamento, e esse é o diferencial da inteligência de decisão.

Tatiana Sanches é vice-presidente de Sales Management da Fico.

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