Tamara Lorenzoni, mestre em Gestão de Marcas de Luxo pela Domus Academy Milano

O mapa invisível do luxo no Brasil está no comportamento do consumidor

Viagens, gastronomia, wellness, hospitalidade, arte e entretenimento passaram a competir diretamente com bolsas, relógios, joias e moda pela mesma parcela de renda disponível

Autora: Tamara Lorenzoni

Durante muito tempo, desenhamos o mapa do luxo brasileiro olhando para onde estavam as lojas. Jardins, Iguatemi, Leblon, alguns poucos hotéis, restaurantes e endereços capazes de concentrar aquilo que entendíamos como consumo sofisticado.

Esse mapa continua relevante. Mas já não é suficiente.

Uma das distorções mais recorrentes quando se analisa o mercado brasileiro de luxo é confundir ponto de venda com origem da demanda. O fato de uma compra acontecer em São Paulo, Miami, Paris ou Milão não significa que o consumidor viva ali. Da mesma forma, a ausência de uma flagship internacional em determinada cidade não significa ausência de patrimônio, repertório ou desejo.

É justamente nessa diferença que está o que venho chamando de Mapa Invisível do Luxo no Brasil.

O mercado brasileiro de bens de luxo movimentou R$ 56,8 bilhões em 2025, crescimento de 8% no ano, segundo a Euromonitor. A projeção da consultoria aponta para um mercado de aproximadamente R$ 81 bilhões até 2030. O dado mais interessante, porém, não está apenas no tamanho. A própria análise identifica uma preferência crescente do consumidor brasileiro por experiências e por produtos capazes de justificar seu valor no longo prazo.

Ou seja: existe mais dinheiro circulando no mercado, mas há também mais critério.

E é exatamente por isso que olhar apenas para a renda ou para os endereços tradicionais do luxo começa a produzir uma fotografia incompleta.

Um levantamento da Serasa Experian identificou 7,5 milhões de brasileiros com perfil premium e alta propensão ao consumo de artigos de luxo. O Sudeste ainda concentra 60% desse público e o estado de São Paulo, 39%. Mas há um detalhe revelador: a capital paulista responde por 18% e Campinas já aparece como a segunda cidade com maior concentração desses consumidores. O mesmo estudo mostra que 49% desse público é sócio de empresas, 87% resgatam milhas e seis em cada dez têm forte perfil viajante.

Essa combinação ajuda a explicar por que parte relevante do consumo brasileiro continua invisível para quem procura o luxo somente onde estão as vitrines.

Há empresários do agronegócio, executivos, famílias empresárias e novos patrimônios construídos em cidades onde talvez não exista uma boutique da Louis Vuitton a poucos quilômetros de casa, mas onde existe um consumidor que viaja internacionalmente, frequenta hotéis de alto padrão, compra joias, carros, moda, vinho, arte, gastronomia e serviços sofisticados.

Seu CEP pode ser regional. Seu repertório, não. Os dados patrimoniais também ajudam a enxergar essa transformação. A ANBIMA registrou R$ 8,5 trilhões em investimentos de pessoas físicas ao final de 2025. O varejo de alta renda foi justamente o segmento que mais cresceu no ano: 21,2%, alcançando R$ 3,13 trilhões. Mais importante para esta discussão, todas as regiões brasileiras aumentaram o volume investido. Nordeste e Norte, por exemplo, avançaram 15,6% e 18,6%, respectivamente. Na gestão de patrimônio, o Nordeste cresceu 20,7% em 2025. Naturalmente, patrimônio financeiro não pode ser traduzido automaticamente em consumo de luxo, mas é um indicador importante de uma riqueza que precisa ser analisada para além de seus centros historicamente mais visíveis.

Há, portanto, um deslocamento que é geográfico, mas sobretudo comportamental.

O consumidor de alta renda brasileiro está mais seletivo. Pesquisa divulgada pela Globo em parceria com a PiniOn, em 2026, mostra que dois em cada cinco consumidores de alta renda fazem escolhas de produtos e serviços premium de maneira seletiva e de acordo com o contexto. Para a Classe A, o luxo está fortemente associado à satisfação pessoal; exclusividade aparece como requisito, e não como diferencial. Outro ponto particularmente relevante: preço, sozinho, não funciona como indicador de qualidade. A consistência da marca pesa mais do que atributos puramente aspiracionais.

Essa mudança parece sutil, mas deveria alterar profundamente a estratégia das empresas.

Durante anos, grande parte do crescimento do luxo global foi sustentada também por sucessivos aumentos de preço. A McKinsey calcula que mais de 80% do crescimento do setor entre 2019 e 2023 veio de reajustes, e não de aumento equivalente de volume. O resultado foi um consumidor mais atento à relação entre preço, qualidade, criatividade e experiência. Em 2026, o debate internacional do setor já não é apenas sobre quanto o consumidor pode pagar, mas sobre o que ele entende que merece pagar.

No Brasil, essa discussão ganha características próprias, o cliente de alta renda pode ter capacidade financeira para comprar, mas isso não significa que aceitará qualquer entrega apenas porque ela traz uma marca reconhecida. Ele compara serviços internacionalmente. Conhece hotelaria. Viaja. Pesquisa. Conversa com outros consumidores. Reconhece quando existe cuidado e percebe rapidamente quando exclusividade é apenas um discurso colocado sobre um produto caro.

A Visa identifica justamente a ascensão de um consumo de alta renda mais discreto, ligado à conveniência, privacidade, confiança, bem-estar, experiências culturais e personalização. É uma sofisticação menos dependente da demonstração explícita de status e muito mais interessada naquilo que torna a vida melhor, mais simples ou mais interessante.

Isso também explica por que experiências vêm disputando orçamento com bens tradicionais de luxo. Viagens, gastronomia, wellness, hospitalidade, arte e entretenimento passaram a competir diretamente com bolsas, relógios, joias e moda pela mesma parcela de renda disponível. A Euromonitor aponta uma preferência contínua por experiências imersivas no mercado brasileiro, enquanto o turismo de luxo no país continua majoritariamente doméstico: dados de 2025 da Brazilian Luxury Travel Association indicam que cerca de 70% dos hóspedes do segmento são brasileiros.

Para as marcas, a consequência é bastante prática: estar presente no mercado de luxo brasileiro não significa necessariamente abrir mais lojas.

Em alguns territórios, fará sentido abrir. Em outros, o movimento mais inteligente pode ser criar clienteling regional, experiências privadas, eventos de relacionamento, serviços de concierge, trunk shows, ativações temporárias ou uma logística capaz de oferecer ao cliente do interior do país o mesmo nível de cuidado oferecido a quem mora a cinco minutos de uma flagship.

O digital entra nessa equação não como substituto automático da loja física, mas como infraestrutura de relacionamento. O próprio consumidor brasileiro de alta renda continua valorizando espaços físicos porque deseja experimentar, tocar, conversar e receber atendimento consultivo. O que ele não aceita mais é que a qualidade dessa relação desapareça quando sai da loja.

O verdadeiro omnichannel do luxo não é poder comprar a mesma bolsa no aplicativo ou na boutique. É ser reconhecido nos dois.

É ter seu histórico compreendido. Receber uma indicação coerente com seu gosto. Resolver um problema sem repetir a mesma história quatro vezes. Conseguir acessar a marca mesmo morando a centenas de quilômetros de seu principal endereço. Ser convidado para aquilo que realmente lhe interessa e, principalmente, não receber comunicação irrelevante apenas porque entrou em uma base de CRM.

Não por acaso, o relatório Global Powers of Luxury 2026, da Deloitte, identifica experiência do cliente e fidelização como a principal oportunidade de crescimento apontada pelos executivos do setor. Em um mercado que amadurece, aquisição continua importante, mas conhecer profundamente quem já escolheu a marca ganha outro valor.

É aqui que o Mapa Invisível deixa de ser apenas uma constatação interessante sobre o Brasil e se transforma em ferramenta estratégica.

As empresas precisam voltar a perguntar quem é esse consumidor, onde ele construiu patrimônio, como viaja, com quem se relaciona, o que considera exclusivo, quais serviços já experimentou fora do país e quais códigos culturais fazem sentido para ele.

Não existe um único consumidor brasileiro de luxo. Existe o empresário do interior paulista que circula entre Campinas, São Paulo e Miami. Existe a riqueza ligada ao agronegócio no Centro-Oeste. Existem patrimônios familiares consolidados no Sul. Existe um Nordeste com capital, hospitalidade, turismo e consumo sofisticado em expansão. Existem novos empreendedores digitais, famílias tradicionais, herdeiros e profissionais que ascenderam economicamente por trajetórias completamente distintas.

Tentar atender todos eles com a mesma narrativa de luxo é justamente uma das maneiras mais rápidas de não compreender nenhum.

O próximo ciclo do luxo brasileiro será menos sobre descobrir se existe dinheiro fora dos lugares onde sempre procuramos. Os dados já mostram que existe.

Tamara Lorenzoni é mestre em gestão de marcas de luxo pela Domus Academy Milano.

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